quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Porque não sorrir quando me posso esconder?

"As coisas acontecem quando menos esperamos"

E para mim é estranho que um cliché bata sempre certo.
Uma assustadora verdade provada no tempo, que apura a arte de mentir a nós próprios, de esconder os desejos e os medos e mostrar  apenas uma capa de força e de amor próprio, que pode enganar quase todos mas que nunca nos há-de esconder das nossas verdades. Talvez por alguns instantes que nos iludem com a felicidade de quem aceita o conformismo e não espera mais da vida senão pedaços de felicidade, que todos juntos não passam de um retalho que tapa parte de um corpo que se deixa levar pelo tempo, que nos deslumbra com um presente demasiado confuso para que saibamos onde estamos afinal.

- Consegues ver?

Um corpo à deriva numa tempestade celeste, num mar de dúvidas a curto prazo e de certezas suspensas. Um presente que nos deixa ausentes, um pensamento que se perde do essencial e tenta à força encontrar o caminho perdido que abandonou algures. Talvez na montra de uma loja de brinquedos antigos ou ao saltar uma fogueira com uma mão cheia de rebuçados, talvez no fundo de uma piscina ou na areia de uma praia qualquer, numa reviravolta da vida em que deixámos por instantes de ver. 

-  Tás a olhar para onde?

E como é que afinal as coisas haviam de acontecer como esperamos? Quando queremos tanta coisa, que nunca nos irá acontecer uma a que possamos chamar coisa. Quando nos acontece sempre outra que depois vaza com o tempo e se perde por entre umas mãos abertas, porque já se quer outra coisa qualquer que há-de vazar também? Num firmamento de pó que desaparece com a primeira brisa mais forte, que nunca chegou a ser nada a não ser nos nossos sonhos, numa despromoção realisticamente crescente, das ambições para sonhos,  até que pelo meio descobrimos que é tão fácil mentirmos a nós próprios como mentirmos aos outros.

- O que é que queres ser quando fores grande?

Um bombeiro que entra dentro dum prédio em chamas e salva a última criança, um astronauta que deixa a primeira pegada em Marte, um cientista que descobre a origem da vida, um futebolista que marca o golo da vitória da liga dos campeões pelo Benfica, como se uma pessoa fosse apenas um momento e que tudo o resto é apenas consequência dessa fracção de segundo, que aos olhos dos outros nos define enquanto ser.

- Na vida tens que tomar decisões!

Um sim e um não, um talvez, um dia destes quem sabe, porque isto de viver vai-nos dando a descobrir que quanto menos planos fizermos, menos nos desiludimos e que a incerteza é dos melhores afrodisíacos do mundo que nos é conhecido.

- Faz-te à vida!

Um bocadinho à esquerda, um bocadinho à direita, um passo em frente e fico parado a ver no que dá, que a vida pode dar voltas e voltas mas esta gente parece nunca estar satisfeita, reclamam por tudo e por nada, de cochicho em cochicho e depois quando é preciso,

- Boa tarde Sr. Doutor!

Que a coragem das palavras que expressam o que pensamos custa muito. Custa o conforto de um cumprimento, custa o carro e a casa, custa  a moto e pode custar as coisas todas que nós queremos. Puta que pariu a integridade que eu quero é um carro novo! Que é que me custa apertar a mão e sorrir? Cínicos somos todos, porque me há-de custar tanto a mim?

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Os estranhos e a minha felicidade

Lembro-me de quando era mais novo e ainda viajava no banco de trás do carro dos meus pais, pensar sobre como eram estranhos, todos os carros que se cruzavam connosco num determinado ponto da estrada e que depois, se afastavam até desaparecerem de novo. Imaginava quem seria aquela gente que se cruzava na minha vida, quase sempre tão depressa como desaparecia e achava muito estranho imaginar que elas pudessem ser gente sem me conhecer.

- Não sabes quem é que eu sou?

Acho que todos nós carregamos um ego demasiado grande que a muito esforço tentamos controlar, mas nada que o tempo não domestique civilizadamente, à medida que vamos vivendo ano após ano. Perdi a conta às vezes que o meu pai me disse,

-Tu ainda hás-de dar muitas cabeçadas na vida!

E nunca sei se são avisos perante as minhas teorias absurdas, se um desejo ou uma esperança de que eu aprenda com os erros, mas quase de imediato me imagino a bater com a cabeça nas paredes lá de casa, ou a chorar virado para um dos 4 cantos de uma sala que me esconda a vergonha do resto do mundo. É um facto que não consigo controlar, por muito descabida que me pareça uma frase, sempre que é dita por alguém de quem gosto muito, ela passa a viver dentro de mim e mistura-se com o infinito de frases, que todo o dia circulam no caos dos meus pensamentos e que me dificultam a concentração em actividades terrenas.

- Olha para as pessoas quando elas falam contigo!

Sempre achei que se podia ler os sentimentos de uma pessoa através dos seus olhos, ainda hoje acho e talvez por isso seja tão difícil manter o olhar fixo nos olhos de alguém. Quem me diz a mim que não percebem que passados uns segundos já estou a pensar noutra coisa qualquer, com a certeza de que apanho a conversa mais à frente, ou que apenas acho estúpido o que me dizem, ou que me custa a entender que não se aparem os pelos do nariz ou das sobrancelhas e que o meu olhos não consigam esconder aquilo que eu sinto.

- Não achas?

A juntar frases soltas para ver se consigo atá-las num discurso com nexo, enquanto abano a cabeça afirmativamente, ao mesmo tempo que espero pela reacção à minha concordância. O ferro do viaduto, o relvas que não se demite, os olhos castanhos de uma princezinha por quem sem querer me apaixonei, a levantar voo num avião com destino a Dubrovnik e a aterrar de novo, quando de repente percebo do que é que se estava a falar. E constantemente a tentar retroceder em pensamentos que se perderam até hoje e que talvez nem reconheça se os voltar a ter de novo.

- A pensar morreu um burro!

A vida dos outros sem a minha existência e os carros que passam e que nunca mais vejo, um universo que afinal não gira à minha volta, as cabeçadas que já dei e as que ainda hei-de dar, um futuro que é um cilindro sem fundo, o meu medo do não retorno, de me tornar alguém que não quero ser,

- Tu ainda és muito novo para perceber...

Será que dá para ficar sem perceber? Viver numa ingenuidade eterna no meu caos de frases perdidas e continuar a ser apanhado de surpresa pelas pequenas coisas da vida e mimado pelas grandes. Os amigos e as amigas que me tratam como alguém tão especial, um pai que se tornou na minha referência na escala dos valores das pessoas, uma mãe que é a fonte de toda a bondade do mundo e me faz sentir uma criança mimada, uma princezinha de olhos castanhos que me adoça as agruras do dia-a-dia, um irmão mais velho que é a definição perfeita da palavra irmão e um mundo que gira sem parar envolto por um céu de todas as cores do arco íris.

- Fazes-me tão feliz...

Desculpem a minha ausência de textos neste mundo transparente, mas ainda ando a ver se descubro como se escreve quando estou feliz.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Somos feitos de carne



Podemos estar o dia inteiro sentados, à espera de uma nossa senhora qualquer, ou de um Sebastião que chegue numa neblina matinal, de braços cruzados e queixumes numa surdina em que mais parece que nada se diz. Dia após dia, de pés bem assentes na terra, que isso dos sonhos é coisa de loucos e só traz desilusões. E, numa espécie de asco que toda a gente humana expele de vez em quando, num tossir que mais parece um,

- Ladrões!

Esvaziamos o saco que vai enchendo, fechamos a porta, ligamos a TV e esquecemos tudo, afinal para quê vivermos com rancores dentro nós? E imaginamos uma personagem de bigode empoleirado num megafone antigo, de calças à boca-de-sino e camisola de gola alta, que faz da sua vida um protesto, que há-de acabar numa reforma antecipada pelo tempo que lhe roubaram as vitórias dos maus sobre os bons. E agora, aos 60, ainda o vemos por entre os jovens que de vez em quando se unem, por uma causa que lhe é familiar em tanta coisa,

- A luta continua! A luta continua!

A merda da luta que parece não ter fim… E as imagens pesam tanto que às vezes  se torna impossível  ignorá-las.  Instalam-se e crescem de tal forma, que só vemos um bigode empoleirado num megafone espumado e nem um sinal do Sebastião, ou de uma senhora que surja a uns pastorinhos quaisquer, nem sombra de um herói que nos aponte um caminho desbastado, no qual se consiga ver uma luz ao fundo deste túnel escuro pelo qual tacteamos, à procura do caminho certo por entre tantas bifurcações, que no fim, tudo se parece esgotar num jogo da cabra cega sem nenhuma entidade divina que nos valha.


- A culpa é dos políticos!

- A culpa é desses mandriões que vivem à custa do estado…

Parece que não sabem que a culpa em Portugal nunca é de ninguém, que acabamos sempre por dar de um lado e tirar do outro, enquanto cruzamos a generosidade com o maldizer, a inveja com a felicidade, o ser pequeno mas ser único…

- Se deus quiser há-de correr tudo bem!

Cá para mim podem esperar sentados pela omni-ausência de alguém, porque eu prefiro a realidade à ilusão e então respondo sempre na mesma moeda,

- E se deus não quiser? E se nem sequer tiver opinião sobre o assunto e lhe forem completamente estranhos os nossos problemas?

E as pessoas riem-se

- Coitado…

Mais um que se alimenta da própria alma em vez do corpo de deus, servido gratuitamente em forma de hóstias na paróquia mais perto de si, que isso da fome só bate à porta de quem não tem fé.

E falamos à boca cheia da justiça e da injustiça da vida e de como tudo deveria ser. Clamamos por igualdade e solidariedade, mas à segunda deixamos o filho mais novo no colégio, que o mais velho já vai de carro para a faculdade privada, sem que sejamos capazes de pensar na contradição entre as palavras e os actos. Sem que consigamos perceber que a igualdade se esgota na própria condição do ser humano e, que afinal depositamos na humanidade uma esperança infundada.

- Vamos honrar os nossos compromissos!

Numa caravela milenar, à deriva num mar cheio de adamastores que guardam o fim do mundo que há-de ser uma queda de água para o infinito, ou para a boca dentada de um monstro escabroso, quando afinal estamos sentados em casa, de mãos atadas e olhos vendados enquanto deixamos que nos levem tudo.

- Isto queria era um novo salazar!

E no meio disto tudo, confesso que o que mais me assusta é saber que o medo pode cegar as pessoas…

terça-feira, 11 de outubro de 2011

O Rambo


O Rambo de Ruivães bem podia ser o nosso zé povinho personificado, um símbolo do povo quando mais falta nos faz. Tem uma empresa a meias com o irmão, mesmo aqui em baixo da minha casa, onde vende os melhores frangos de Lisboa e as melhores imperiais da União Europeia e ali, toda a gente pertence à mesma família.

- Viva primo! Que é que vai ser?

De trás do balcão lança-me um aperto de mão e um sorriso de puto traquina, enquanto vira frangos de óculos na testa e camisa aberta, a mostrar o medalhão de ouro com a santa lá da terra, que o Rambo pode ser duro de roer, mas a fé faz falta a toda a gente. De ténis confortáveis, que aquilo são muitas horas de pé e aposto que ainda lhe junta umas meias de descanso com a frequência diária da boina branca que o irmão Nelinho usa, enquanto festeja cada café servido com troco dado e tudo.

- Missão cumprida! Religiosamente!

E aquilo parece-me uma blasfémia propositada, uma ironia sem ponta de piada, porque ali, naquela empresa de balcão de alumínio e janela para a avenida, nada é sagrado a não ser as brasas do frango e as imperiais bem tiradas. E o Rambo, sempre ele, de avental pela cintura e dentes arreganhados, porque afinal o sorriso é como outra coisa qualquer, se não lhe damos uso torna-se velho e cansado.

- Família!

E ergue os dedos num “V” de vitória bem acima da cabeça, porque o mundo não pode ser só das cores que nós vemos, nem nós podemos viver presos nas dimensões da nossa forma. Por isso ali a crise não entra e pagam-se rodadas como se fossem os homens mais ricos do bairro, de barriga encostada ao balcão e espuma branca no canto do bigode mal aparado, mas o rambo não, que um militar à séria não se dá a esses desleixos.

- Coitado… Apanhou a mulher com outro e ficou assim.

Um desgarrar de histórias infelizes que se choram naquele balcão, confortadas por um copo de vinho caseiro ou um cálice de medronho, que limpa a tristeza e devolve um sorriso às caras vazias de esperança e aos bigodes fechados e roídos pelo nervoso miudinho de uma falta de coragem a tempo inteiro. Porque na empresa do Nelinho e do Rambo, o sonho confunde-se com a realidade como no inicio do sono, e damos por nós a caminhar por outro mundo paralelo.

- No Vietname não havia dentistas!

Eu quando ali entro sou um antigo companheiro de guerra do Rambo e dou por mim a lembrar-me dos dois no meio do mato, de G3 na mão e faca presa nos dentes, enquanto desbravamos caminho por um pântano qualquer que nos esconde dos pequenos homens amarelos que nos querem matar. Falamos dos que salvámos e dos que matámos também e recordamos histórias de pequenas conquistas vietnamitas, em que ele, acaba sempre por dizer qualquer coisa que me faz rir sem conseguir dizer mais nada.

- São uma cambada de putas e xulos!

Eu dou-lhe razão e lembro-me dos dias maus em que me sacou um sorriso, dos segundos em que me tornou sonhos em realidade e saio dali com a certeza de tudo, pelo menos até ao virar da esquina, em que já duvido que tenha estado no Vietname com ele. Mas depois encontro à porta de casa a antiga glória do Benfica, que jogou com o Eusébio e mando à fava realidade e fico-me pelo surrealismo deste quarteirão da Afonso III, afinal que piada tem a vida se não sonharmos acordados de vez em quando?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Uma história diferente

A nossa é uma daquelas histórias bonitas em que alguns não acreditam. Com principio, meio, mas com o fim por escrever. Só o presente de vez em quando, a cada memória, a cada presença, a cada ausência, a cada momento sozinho. A gente pensa sempre que o tempo há-de apagar as coisas que nos magoam, mas quase nada é exclusivo da dor, e as memórias, habitam na ponta de um pêndulo que oscila entre o mau e o bom, entre o que queremos lembrar e o que preferimos esquecer. Eu, que acho que nós crescemos mais na dor que na alegria, preferia não esquecer nenhuma delas e guardar todas, para poder revive-las sempre que reparo que o amor é cada vez mais difícil de encontrar.

- Escreve um texto sobre mim...

- Tu não mereces.

E veio-me à cabeça o primeiro beijo nuns sofás cambalhota, o pneu furado ao pé de Sevilha, a subida à torre Eiffel quando fiz 30 anos, as vezes em que me consolaste num abraço perdido no tempo e decidi escrever um elogio à amizade, um agradecimento honesto às coisas que contrariam a aleatoriedade da vida e que nos ligam a alguns seres por algo mais do que o evidente, por uma química indecifrável, por uma energia que permite a junção dos átomos numa espécie de fusão prometida mas utópicamente adiada.

- Fala! Em que é que estás a pensar?

Uma paixão que se foi esfumando a cada pedaço de orgulho guardado, a cada cedência contrariada, uma porra de uma eternidade que se transforma na inevitabilidade de um fim, de mais um carpir de mágoas, em que eu me convenço que sou mais forte do que tudo e que hei-de conseguir manter-me de pé por entre o nevoeiro da dor.

- É tua amiga?

E continuo a fintar o amor, a esconder-me dos sentimentos que nos deixam vulneráveis à cegueira de uma paixão descontrolada, a evitar certezas que se desfazem em desilusões que nos roubam pedaços que julgávamos serem exclusivamente nossos, intrinsecamente nossos. E agora dois seres que se respeitam num carinho temente, como se ambos soubessem ser impossível esconder um do outro, a dor que se guarda por entre camadas de esperança em amar assim outra vez.

- Vamos ser amigos para sempre!

Abrias portas por mim, acendias a luz e trazias-me à terra, como se faz aos meninos que sonham muito tempo acordados e eu, ajudava-te a ver as coisas como um passado intocável e o futuro, como uma história por contar de mil e uma formas capazes de te afastar da tristeza.

- Adoro a vossa relação!

Tu chamavas-me de louco e eu a ti de maluca, os outros talvez nos chamassem de insensatos por amarmos de forma tão diferente. Nós provámos-lhe que os insensatos eram eles, porque amámos e soubemos manter um amigo, quando tanta gente ama a vida inteira sem gostar. De ti guardo todas as partes boas e as más também. E um dia, quando encontrar outra mulher singular, vou sentir que aconteceu por nunca ter deixado de acreditar que o amor compensa mesmo e que algumas histórias, só podem ser escritas por duas pessoas assim.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Origens

Às vezes um raio de luz que nos aquece, um vento forte que nos abraça, um pingo de chuva que nos molha e nos desperta. Às vezes um salpico do mar, o cheiro a terra molhada e os pés sujos no chão que nos diz de onde viemos.

- Vamos jogar à bola para o pinhal?

Hoje já não há pinheiros, só uma casa no canto onde outrora havia a clareira com as medidas oficiais de qualquer campo imaginário. À volta, um descampado que se estende até ao ribeiro lá em baixo que seca todos os verões. Os tempos mudam, mas as vontades são quase sempre as mesmas, transfiguradas por mais ou menos acessórios que naufragam perdidos, nos sonhos que vamos tendo. Apanhávamos caracóis e assávamos num tacho com o fundo furado quando chegava o calor, regávamos laranjeiras de pés descalços, ajudávamos na vindima por entre abelhas e vespas, e essas coisas ficaram gravadas numa folha que resiste às piores tempestades que vamos encontrando.

- Para o ano vamos viver para Sines!

Sines? Onde é que isso fica?

- Fica no sul, junto ao mar.

E uma rua em calçada que desce para o azul da praia, por entre 2 casas que nos estreitam o olhar. E eu de lancheira na mão junto ao portão da escola, a aprender a viver com a tristeza da memória dos amigos que deixei, dos carrinhos que fazíamos para descer a rampa dos prédios, das varandas que eram abrigos contra os ciganos, dos arbustos onde guardávamos os rebuçados e as pastilhas elásticas que íamos conquistando e de um rio, que rasgava de azul a lezíria numa janela qualquer.

- Vamos andar de bicicleta logo à tarde?

Descobrir um novo mundo numa terra nova e refazer um bocadinho do nosso, peça a peça,como quem cola os continentes todos numa peça só. Descobrir amigos que são irmãos e aprender a viver num outro sítio. Descobrir o mar, vencer o medo de um susto e nadar cada vez melhor, para não ter medo de nenhuma corrente que me queira levar para outro lado, para outro sitio de onde eu nunca serei.

- Quero ir para a praia!

E gritar "pipeline!!!" enquanto desço a esquerda do molhe, como nos filmes de bodyboard que víamos em casa do João ou de mãos dadas com a miúda mais gira que eu conhecia, numa carrinha escura que voltava de uma prova de natação. E passei a ser de Sines num pôr do sol dentro de água, numa camisola branca com Sines escrito no peito, a rir com os amigos no largo do castelo, num primeiro beijo tremido numas escadas viradas para o mar.

- Já não te via aos anos mano!

Amigos que deixamos de ver mas que vivem escondidos dentro de nós, que as vidas separam-se e os nós desfazem-se mas ficam marcados, vincados, ao pé de outros novos que se vão criando. Como rectas coincidentes num certo ponto, repetidamente coincidentes, que nos aproximam de algumas pessoas e nos afastam de outras.

- É o destino!

Tudo tem de ter um nome para o que não sabemos explicar, mesmo que seja apenas isso, um nome sem mais nada, sem valor nem sabor. E aprendemos que na vida vale tudo e que temos que ser nós a criar as nossas regras, a saber o que não queremos mesmo que não saibamos o que queremos, que isto da vida é complicado, por isso, porque não simplificar?

- Vamos lá?

- Bora!

Jogar à bola para uma clareira num pinhal, dançar numa festa junto ao rio, dar um beijo numas escadas viradas para o mar, dar-te a mão numa carrinha escura, sacar um tubo cristalino que num segundo dura a vida inteira e um olá envergonhado... Como quando duas pessoas se estranham por descobrirem que afinal são 2 rectas coincidentes num ponto, mas não saberem como será o amanhã.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

os monstros

Por entre os 2 cortinados que me protegiam da luz da rua, espreitava um monstro com a cabeça do filho de um casal amigo dos meus pais.

- Mamã, não quero dormir sozinho!

Quando temos medo regressamos a casa e tentamos quase sempre manter as coisas que são nossas, completamente a salvo de tudo. Acho que a quantidade de coisas que estamos dispostos a deixar para trás, para nos salvarmos do medo, é inversamente proporcional à pessoa que somos. Há quem deixe tudo para trás e só se salve a si, outros há que salvam milhares enquanto fazem o mesmo por eles.

- As pessoas não podem ter medo da mudança

Tapava a cabeça com os lençóis e ficava ali, lembro-me que preferia não ver nada do que enfrentar aquele monstro que já imaginava à beira da minha cama. Hoje ainda sou igual quando prefiro não ver o talão do multibanco, sempre que levanto dinheiro. As pessoas nunca mudam realmente, escondem os mesmos medos, as mesmas inseguranças, disfarçam os mesmo defeitos, ocultam cicatrizes antigas, sorriem quando lhes apetece chorar, choram quando a solução é andar para a frente, usam máscaras que deixam cair quando o medo lhes bate à porta.

- Estamos a caminhar para o abismo!

E damos um passo em frente, de olhos fechados e os lençóis a defenderem-nos da queda, pode ser que se encham de ar e se transformem num balão que nos aterre suavemente no chão. Mas e se não houver chão? E se só houver espinhos nos quais nos vamos afundando, enquanto nos dilaceram o corpo e a alma até que fiquemos sem nada, sem alma nem corpo nem vestígio de nós.

- Vamos-nos juntar aos espanhóis!

De mãos abertas e sem nada para oferecer. A culpa é do Afonso esse malvado que batia na mãe. Saco de uma bandeira verde e vermelha e corro pela rua fora gritando,

- Portugal! Portugal! Portugal!

Não quero perder o meu País, estava previsto ir e voltar e não isto que se me avizinha, de não querer sequer voltar um dia, para uma vida calma, preocupado comigo e com os meus e que se lixe a corrupção, que se lixe a podridão, que já devia ser um homem calejado nessa altura. Qualquer dia partimos como antes partimos, em caravelas voadoras que nos levarão a novos mundos no mundo, a espreitar por entre os lençóis e os cortinados parados, só um vulto a cada piscar de olhos assustado.

- Já fomos donos de meio mundo e agora nem no nosso País mandamos...

Uma frase diz tanta coisa, que às vezes só se lhe pode seguir um silêncio escuro e pesado, de sabor amargo e som abafado. Tiramos os lençóis para o lado, pomos os pés no chão e vamos espreitar atrás dos cortinados entreabertos para a rua por onde eu acho que ele fugiu. Pode ser que aí, a gente perceba que os monstros só existem dentro de nós.

domingo, 13 de março de 2011

O Mundo por uma lente - Capítulo 2





MOINHO DE MARÉ - CORROIOS

Ao longo da Idade Média, o aproveitamento da energia das marés para a moagem dos cereais conheceu uma difusão no espaço europeu, tendo sido identificadas na Irlanda do Norte as mais antigas estruturas deste tipo, as quais remontam ao século VII. Posteriormente viriam a ser edificados moinhos de maré em diversas regiões do litoral Atlântico Europeu, e a partir do século XVI, também em outros Continentes.

O Moinho de Maré de Corroios foi edificado em 1403 por ordem do Condestável, D. Nuno Álvares Pereira. Foi ampliado no início do século XVIII após ter sofrido grandes danos no terramoto de 1755. Em 1980 foi adquirido pela Câmara Municipal do Seixal, que o restaurou e abriu ao público, em Setembro de 2009, como parte do Ecomuseu Municipal.

O Moinho de Corroios é dos raros que se mantém em funcionamento na área do Estuário do Tejo.

sexta-feira, 11 de março de 2011

A luta



Trago presas a mim uma série de cordas que me servem de lastro, numa batalha constante, entre aquilo que me faz voar e aquilo que me faz sempre voltar a terra.
Sabes, acho que as pessoas são feitas de pedaços de coisas que nos acontecem.

- Vamos lá hoje?

Na ponta de cada corda, uma lata cheia das mais diferentes coisas, a família, os amigos, a ideia de uma vida cheia, de um amor ideal, a imagem que achamos que os outros têm de nós.
Li algures que cada pessoa são três pessoas diferentes, uma aos olhos dos outros, outra aos nossos e aquela que somos na realidade.

- O meu filho já tem a vidinha feita!

Casa comprada, carro novo, mulher e para breve um filho, tudo para pagar durante a vida. Sim, que cada vez se vive até mais tarde por isso há muito tempo para pagar. As latas arrastadas pelo chão, porque a chama não é tão forte assim para aquecer o ar do nosso balão. E então vivemos na nossa pequena capoeira, com asas mas sem saber como voar sobre as paredes da nossa vida.

- Hoje mascaraste-te de deusa foi?

Palavras que ficam por dizer, actos guardados e arrumados numa gaveta qualquer, e nós fechados na nossa bola de cristal, tão depressa transparente como opaca, para que possamos esconder só uma parte dos nossos medos, defeitos e contradições. A mim sempre me deixaram desconfiado as pessoas demasiado perfeitinhas.

- Vamos fazer uma manifestação pacífica!

Todos juntos, num chinfrim de latas pelo chão a fazer saber que estamos aqui e não somos parvos, que chova e faça frio à vontade, porque as nossas chamas não se apagam assim.
Acho que todos os jovens do mundo se deviam juntar, agora que temos um País que nos une a todos.

- Vamos marcar isto no facebook!

Qualquer dia temos mais gente que a China, mas sem armas, só um exército de palavras e imagens, e sem fronteiras que nos confinem a um espaço fechado. Havemos de conseguir fazer o que nunca foi feito, juntar o mundo inteiro em torno de um sitio só, e aí sim, alguma coisa poderá acontecer. Que se perdoem as dívidas virtuais, que se esqueçam as zangas antigas, porque nós ainda somos jovens e não queremos viver com estas cruzes todas a vida inteira. Corta-se a ponta da corda e já está! Voamos um bocadinho mais alto e vemos as coisas de outra maneira.

- E tu eras aquele miúdo mais bronzeado!

Mas já não somos miúdos sabes? Isso é o que nos chamam aqueles que não nos querem ouvir, mas a vida não nos deixa mais sermos crianças. É altura de pegar a vida pelos colarinhos e encostá-la à parede lá de casa.

- Vais à manifestação amanhã?

Não levo cartazes nem bandeiras, só uma folha A4 com umas palavras. Visto-me de escuro e vou com os meus sonhos todos para lá. E não me digam que não posso sonhar, porque foram vocês que me ensinaram que "sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança" e desta vez, quem sabe, se não chegamos mesmo a voar.

- Se vocês mostrarem que têm força, os outros vão todos atrás!

Vestiste-te de preto e de certeza que nunca nada te ficou assim tão bem, não é que eu tenha sonhado, mas acordado vi-te num sonho feito por mim, em que me sorrias e dizias que sim. Mas as cordas às vezes parecem correntes sabes? Eu sei que sabes... Saltamos mas não saímos do chão, gritamos mas ninguém nos ouve, tentamos respirar e sufocamos, queremos ver melhor e ficamos cegos, afinal pode ser que seja preciso batermos no fundo, para finalmente não temermos mais nada.

domingo, 6 de março de 2011

O Mundo por uma lente - Capítulo 1





INSTITUTO SUPERIOR DE AGRONOMIA - LISBOA

A Escola
O Instituto Superior de Agronomia (ISA) é, em Portugal, a maior e mais qualificada escola de graduação e pós-graduação em Ciências Agrárias, sendo o seu know-how reconhecido nacional e internacionalmente. Com 156 anos de experiência, adapta o seu ensino à evolução tecnológica e à realidade do País, apostando na qualidade e modernização do mesmo.

História
O Instituto Superior de Agronomia (ISA) tem as suas raízes remotas em 1852, com a criação do Instituto Agrícola e Escola Regional de Lisboa, no reinado de D. Maria II, durante a Regeneração, dirigida por Fontes Pereira de Melo.

No ano de 1864 verificou-se a junção do Instituto Agrícola de Lisboa com a Escola de Veterinária Militar (ao Salitre), que fora fundada pelo Governo do Rei D. Miguel em 1830 (29-III), criando-se, deste modo, o Instituto Geral de Agricultura.

Após a implantação da República, em 1910, todo o sistema educativo do País entra em transformação. O Instituto de Agronomia e Veterinária é extinto e substituído por duas instituições diferenciadas: a Escola Superior de Medicina Veterinária e o Instituto Superior de Agronomia. Era Ministro de Fomento do Governo Provisório da República Manuel Brito Camacho, que instituiu os títulos de Engenheiro Agrónomo e de Engenheiro Silvicultor para os novos licenciados do Instituto Superior de Agronomia.

Localização
O Instituto Superior de Agronomia (ISA) está localizado na Tapada da Ajuda a qual é um Parque Botânico com cerca de 100 ha, no interior da cidade de Lisboa, de reconhecido interesse internacional, no qual se destacam uma Reserva Botânica única (a Reserva Botânica Natural D. António Xavier Pereira Coutinho), onde estão representadas as espécies características do clímax da zona, jardins, arboretos diversos, viveiros florestais, terrenos de cultura (pomares, vinhas, prados, culturas arvenses e hortícolas) e diversas espécies domésticas e silvestres características.

Património

Para além do património botânico e vegetal, pode encontrar entre outros os seguintes patrimónios históricos e arquitectónicos:

- Edifício Principal do ISA;
- Pavilhão de Exposições;
- Minas de Água;
- Anfiteatro (ou Auditório) de Pedra;
- Observatório Astronómico de Lisboa.

Dados Interessantes
- Um dos antigos alunos desta instituição, tendo concluído em 1986 o curso de Engenheiro Agrónomo, na especialidade de Melhoramentos, foi o vocalista da banda Xutos e Pontapés, o famoso Tim.
- No interior da Tapada existe o restaurante de qualidade chamado "A Pateira".
- É possível o acesso automóvel ao interior da Tapada através do portão Jau (Rua Jau), sob o pagamento de 1,5€. De qualquer modo se for dada a indicação ao porteiro que nos vamos dirigir ao restaurante, talvez ele não cobre nenhuma taxa... dependendo do estado de humor do mesmo.
- A primeira antena de telecomunicações disfarçada de árvore foi instalada no interior da Tapada.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O MUNDO POR UMA LENTE

As viagens e a fotografia são duas das minhas paixões, pelo que decidi juntar as duas e criar um espaço dentro deste blogue onde pudesse abordar os dois temas que tão bem se conjugam. Deste modo o "O Mundo por uma lente", será um desvendar de lugares, vilas, cidades e Paises que visitei e irei visitar. Tentarei de um modo suncito descrever alguns locais, dar indicações que possam ser úteis e ao mesmo tempo retratá-los para que quem não tenha a oportunidade de os visitar possa pelo menos ficar a conhecê-los.

Espero muito em breve dar início a esta jornada, sendo que este primeiro passo é essencial para que o processo seja desencadeado, e para que as muitas ideias que tenho deixem apenas de as ser e passem a ser palpáveis.

Desvendo apenas que a primeira viagem será ao Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, local que apenas à pouco tempo tive o privilégio de conhecer. Ao contrário do que pensava não se trata apenas de um local de ensino, é muito mais do que isso, é um espaço público carregado de simbolismo e repleto de beleza.

Até breve!!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tratado

Queria poder fazer um tratado da alma, um género de redenção por aquilo que eu sei que podia ser e não sou. Queria escrever e com as palavras poder criar uma realidade paralela, onde não existissem futuros adiados, olhares desviados, frases cortadas ao meio e vírgulas trocadas por pontos finais. Peças de um puzzle perfeito, encaixadas uma a uma num desenho inacabado de qualquer coisa.

- É isto que levamos da vida

Mas não me disse o quê e eu fiquei a pensar que são as pequenas coisas, numa admiração envergonhada, que as grandes coisas jamais poderiam surpreender. Temos que ver se abrandamos o tempo, que isto assim não dá e lá vamos dando por nós, a achar que o tempo por passar tão rápido, não tem valor.

- São estas coisas que nós guardamos quando morremos

Coisas pequenas, gestos escondidos, olhos que nos sorriem, palavras genuínas, abraços perdidos no tempo e beijos que unem, um obrigado merecido, um riso descontrolado, duas peles que se tocam e criam uma energia qualquer.

- Precisamos de energia pá!

E construímos barragens para estancar o amor, montamos hélices gigantes a ver se amestramos o vento dos outros, estudamos o mar para não irmos ao sabor da maré, fazemos de tudo e aqui estamos nós, sem eira nem beira, nem rumo para navegar.

- Será que vou chegar a velho sem saber o que quero fazer da puta da vida?

Não sei se engenheiro se escritor, político talvez, ou um voluntário sem causa que só dá e nada tira, um
nómada sem passado nem futuro, de terra em terra com o presente do tempo. Será isso coragem ou cobardia?

- Somos uns coninhas pá!

Eu só queria fazer um tratado da alma, um género de redenção por aquilo que eu sei que podia ser e não sou, mas afinal acho que prefiro viver do presente, com passado mas sem futuro, imerso num sem fim de “ses” feitos “sins”.

- Deixa-me só tirar-te uma fotografia…

Quero guardá-las todas comigo e fazer com elas o que quiser.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Balanço

Que não se esqueça 2010, nem nenhum outro ano que tenhamos vivido, que se lembre tudo e que com isso, possamos ser felizes em 2011 e nos que ainda nos faltam viver. Não sempre, que assim também chateia, mas que pelo menos os momentos bons que tivermos consigam fazer com que percebamos, que a melhor coisa que temos é a a vida em si, a vida em nós.
Bom 2011 a todos!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um dia conto (continuação)

Mas depois um abraço não me chega que eu já sei e hei-de querer logo outro, ainda mais apertado, que ela, se me sente assim outra vez, cai em si e percebe que viver sem mim é estar a mentir a si própria.
O que vale a vida sem ilusões?

- Quando chegarmos tens que me distrair a governanta que ela não me pode ver com isto.

- Como é que tu queres que eu faça isso, se nunca lhe disse mais que um bom dia?

Raios que partam esta gente que vive estes dilemas comportamentais! Eu só quero a porra de um abraço!
É meia noite e a esta hora tudo parece voltar a nascer de novo, as horas que voltam ao zero, a noite que passa a madrugada, o sofá a cama improvisada e eu que continuo na mesma, não começo nem acabo, e lá vou seguindo o tempo que vejo passar por mim quando olho para trás.

- Eu só quero um abraço teu!

Sei que vai repor tudo outra vez, como a meia-noite que chega e põe as horas a zero, como o ano que acaba e começa outro que nos renova a esperança em quase tudo o que falhámos, ou adiámos para outro dia indefinido.
Um homem vive de esperanças e sonhos.

- Um dia vais perceber aquilo que eu valho!

E aí dispenso estes feitiços estúpidos, com quem me iludo nas minhas esperanças paranormais e lá vou reunindo umas forças para levar a vida para a frente. As coisas são mesmo assim, a gente vai juntando tanta coisa de que não nos queremos lembrar, que construímos outras para nos distraírem dos demónios que espreitam nos baús da nossa mente.

- Toca à campainha e distrai-me a mulher que eu vou entrar pelas traseiras!

- Só me metes em filmes pá!

Curtas e longas metragens, ensaios e trailers de películas apenas imaginadas e que depois quase nunca concretizamos. Não sei como serão as mulheres, mas os homens vivem dos filmes que fabricam enquanto sonham acordados, num trabalho de realização medíocre que termina quase sempre num orgasmo a dois, ou numa submissão por KO a alguém que nos quer fazer frente.

- Qualquer dia perco a cabeça!

E um dia pode ser que as palavras deixem de me sair assim, para saírem secas e gastas, como tudo o que me rodeia. O amor, sempre o amor, é como a primavera da vida, torna o verde mais fresco, o azul mais profundo, os contrastes em harmonia, pena é que não surja também todos os anos à data marcada e se nos escape por entre as mãos, prometendo tudo para depois quase nada cumprir.

“Vou casar no Verão, espero que possas estar presente... Beijos”

O bicho a contorcer-se no chão do quarto e a água a escorrer aos meus pés fingindo lágrimas de crocodilo, porque naquele momento não só te perdi a ti, como ao teu fantasma que me perseguia, e ali, finalmente, pude sentir-me tão livre e tão leve, que o vento levou-me pela janela e eu nunca mais me encontrei.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Já não há revoluções

Há-de haver alguém que um dia acorde velho, de testa enrugada e orelhas crescidas de tanto ouvir o que os outros dizem, mesmo sem querer, mesmo sem que sequer dê por isso. Que acorde um dia e sinta que grande parte das coisas que achava importantes, lhe são agora estranhamente irrisórias, como se a vida tivesse sido encurtada, e só lhe sobrasse o amor e o respeito que se conquista à custa de atitudes.

- Eu já não tenho tempo para sonhar!

E eu que não consigo imaginar a vida sem sonhos a ouvir isto. Dito pelo mais velho dos 3 homens, que estavam sentados comigo na mesa do café que agora me serve de refúgio, e onde, sempre que consigo, escrevo frases soltas que depois hei-de juntar para formar um texto qualquer, sobre qualquer coisa que nunca sei bem o que será.

- Eu fui perseguido pela PIDE só por ser amigo do Zeca Afonso!

E eu tenho medo do dia em que acorde e sinta que já não tenho tempo para sonhar. Os velhos a mim parecem-me crianças sem medo

- Hoje já não há revolucionários!

Acho que se esgotou o stock há algum tempo, mas espere um bocadinho que eu vou ali ao armazém ver se ainda há alguma coisa.

- Nada!

E a resignação que chega e já não quer sair.

- Quer que eu veja se temos noutra loja?

Não quero obrigado, que isso não se arranja assim à segunda tentativa. Acho que nisso os revolucionários são como as mulheres, ou não há dúvidas de que valem a pena, ou então mais vale não andar a insistir.

- Já não há homens como antigamente...

Hoje quando cheguei a Lisboa nascia um arco-íris nas Amoreiras que só terminava na outra margem do rio Tejo.

- Paz sim, Nato não!

Comunistas barrigudos, de bigode farto e cara de beberrões, freaks de rastas a tocar tambores e pandeiretas, de cartaz numa mão e garrafa de cerveja na outra, policias que mais pareciam robocops a cada esquina, alinhados em linhas paralelas às ruas sobrevoadas por helicópteros, com amostras de anarcas dispersos e demasiado jovens para poderem sequer ser independentes, quanto mais anarquistas a sério.

- Onde é que você estava no 25 de Abril?

E eu não quero responder que estive em casa, ou que nem dei por isso se dar. O arco-íris tomou-se-me como um aviso qualquer e ali estava eu no meio daquele circo todo. Pareceu-me ver ao virar da esquina alguém erguer um megafone e começar ali uma manifestação sozinho, mas o megafone afinal era da Sagres e dali só se ouviu vir um arroto, que me pareceu outro sinal qualquer para me ir embora.

- Quarta-feira fazemos greve!

Quando era criança queria ser sempre da equipa que ganhava, porque é que agora ando preocupado com a justiça das coisas?

- Não há falta nenhuma! Ganhámos!

Acho que foram as pessoas que me mudaram, os amigos que escolhi não perder, as lições de criança dos pais que a gente vai percebendo em pequenas coisas, as provas de amor que não se agradecem, as amizades construídas degrau a degrau, os silêncios conquistados, a paz interior em minutos que nos valem uma vida inteira.

- Hoje já ninguém se importa com nada!

Agarramo-nos a quê se parece que não temos nada quando há tanta coisa para se querer ter? Às vezes parece que já conseguimos riscar mais um ponto da nossa extensa lista de afazeres mundanos, e lá aparece um novo a repor o peso que carregamos, que canseira... Digo-vos, esta vida assim é fodida!

- Vou para o Rossio ver se acontece alguma coisa...

Um circo montado para depois não acontecer nada, isto sim, é um desperdício de tempo e dinheiro. Acho que vou ser a vida toda um sonhador, que se passeia pela praça a fingir-se interiormente o revolucionário que os velhos choram a ausência. Traçando estratégias, delineando possíveis fugas que me libertem do peso de sentir como é frágil a nossa liberdade.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Outra vez


Andamos para aqui perdidos no escuro, sem que saibamos o caminho de volta ou o que nos espera no passo seguinte, desconfiados uns dos outros, à espera de apanhar uma mentira que desculpe isto, este sitio que ninguém quer e que nos ferve nas mãos calejadas de tantos anos no mar.
33 mineiros saem do escuro de um buraco no fundo da terra, vêm em gaiolas para cima, um a um de óculos escuros a enfrentarem sozinhos as luzes da ribalta, porque agora são estrelas e nós afinal vivemos num big brother ranhoso, de cinismo refinado e bem temperado.
De uma fotografia de um obituário manhoso de um jornal chileno a super estrelas mundiais, e há quem lhes peça conselhos e lições, enquanto outros apenas os querem ver num estádio qualquer ou num anúncio ao seu novo produto que se quer vender. 

- Viva o Chile!

Viva mas é Portugal, que parece que estamos velhos e cansados demais para que nos sobrem muitos mais anos neste arrastar penoso. De mão estendida, a falar portunhol e inglês de Albufeira, dizendo que sim a quem nos acena com um molhe de notas maior, de meias rotas e manta curta e estreita, salva-nos o tempo que ainda vai sendo ameno e amigo.

- Eu se fosse jovem saia já deste País!

Eu quando for velho quero ter um bocadinho de orgulho na minha terra, em vez de dizer estas coisas aos jovens, que eu prefiro que eles cá fiquem para cuidar de mim e dos outros como eu. Trocam-me as botas já rotas, arranjam-me um casaco quente, puxam-me as mantas para cima que agora já faz frio outra vez.
Acho que quero nascer outra vez e fazer tudo de novo.

- O tempo não volta atrás, o que fizemos feito está...

Dar os pimeiros passos outra vez e aprender a andar de bicicleta sem rodinhas de apoio, cair e descobrir outra vez que a dor passa mas as cicatrizes ficam, e ir perdendo o medo assim. Vestir uns calções e uma t-shirtt e sair para a rua para brincar com os amigos e inventar todos os jogos possíveis, construir os meus próprios brinquedos e conseguir que os outros os queiram também, sem invejas de olhares desdenhosos que isto dá para todos.

- O que nós devíamos era ter uma ideia para vender

Ou então arranjamos muitas para dar e oferecer que isso do dinheiro qualquer dia entra em desuso e depois como é? Perguntamos aos 33 mineiros que passaram de um obituário manhoso para a ribalta, o segredo de um esquema assim e pomos mãos à obra, mas todos que senão não funciona. Inventamos um novo astrolábio que nos oriente no espaço, descobrimos um planeta com uma terra como a nossa e construímos alguma coisa que nos leve até lá num piscar de olhos.

- Até me dava jeito um terreno ali em Marte!

Ficamos com todos os jovens que pudermos ficar e os mais velhos que façam uma plástica ou outra, para que pelo menos de aspecto possamos ser todos iguais, cheios de esperanças e sonhos, sem desilusões que nos façam pensar duas vezes, e em vez de viver no passado, fazer tudo sem olhar para trás.

-

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Adeus

Dizias sempre alguma coisa que me deixava a pensar que conseguias ler a minha mente, e que de alguma forma, me conhecias melhor do que aquilo que eu queria que alguém me conhecesse. Metias-me medo porque apesar disso, usavas esse poder para me provocar, como se quisesses testar os meus limites e fazer de mim, só mais um individuo da tua amostra. Calavas o meu desconforto com um sorriso que te enchia a cara e me fazia sorrir de volta. Tinhas umas sardas que pareciam falar comigo e uns olhos com tanta energia que me furavam a alma, num rosto que me pareceu familiar assim que te vi. Talvez num sonho, numa premonição inconsciente da marca deixada pela passagem do teu sabor na minha vida.

- Aposto que não és capaz de sair do carro

Não é que não fosse capaz, mas apetecia-me ficar dentro do carro contigo. Nunca mais te vi e ainda bem que não saí naquela noite escura na serra. Acho que fomos para casa e fizemos amor, pelo menos eu, porque nunca percebi o que sentias por mim. Às vezes lembro-me de ti, havia qualquer coisa entre nós não achas?

- Vamos para o fim do mundo?

Nessa altura ia contigo para qualquer lado, acho que ainda não tinha havido chamadas sem resposta do outro lado, nem desculpas esfarrapadas que eu não queria contrariar, para não desperdiçar o pouco que tempo que me dispensavas. Lembro-me de te ter apanhado uma tarde à porta de casa e me apareceres com o cabelo ainda molhado, num sorriso que te disfarçava as sardas que falaram comigo. Vamos para o fim do mundo que hoje só me apetece estar sozinha contigo, sem um mar de gente a separar-nos, sem desculpas para dar nem perguntas para guardar.

- Não tínhamos combinado ir à praia ontem à tarde?

- Nem imaginas o que me aconteceu

No fim do mundo pus-te o apelido Lisboa, de cabelos louros em vez de negros como sempre a imaginara. Lembro-me que não achaste grande piada à minha metáfora apaixonada, e esboçaste um sorriso falso que fez as sardas fecharam-se num silêncio que me custou a digerir. Acho que nessa altura já tinha deixado de te tentar perceber, eras um fim anunciado que eu apenas tinha que aproveitar até o inevitável acontecer.

- Sai da minha casa!

Levantaste-te sem me olhar nos olhos e saíste porta fora, e lembro-me de ter sentido a tua falta assim que ela se fechou nas tuas costas. Ainda fui atrás de ti para ver se voltavas e te deitavas na cama a olhar para mim, de cara cheia pelo sorriso e as sardas a chamarem-me para um abraço de despedida. Liguei-te no dia seguinte e não atendeste, acho que foi aí que percebi que há coisas que não podemos perder, um último beijo, um olhar que diz adeus com carinho, os nossos corpos  unidos com cada pedaço de pele a despedir-se do outro,

- Adeus!

num final de sabor agridoce, que te fechasse numa pelicula qualquer e te impedisse de andares por aí como mais um espirito à solta.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Um dia conto

- Para que queres esse bicho?

- Que tens tu com isso?

Uma alforreca num saco de plástico transparente cheio de água do mar, do norte, que pelos vistos era melhor para manter o bicho vivo, como  ingrediente de um feitiço daquele livro na cómoda da governanta, uma estranha mulher africana que quase não falava, nem precisava, só ouvia, ouvia tudo. Já por várias vezes me tinha parecido uma esponja de todos os nossos gestos, de todas as nossas frases e expressões, mesmo quando julgávamos estar a sós, como quando a apanhei a ouvir atrás da porta e mais tarde, a falar sozinha no quarto,


- Como é que o menino Pedro ainda é capaz de falar com aquela mulher?


Também não sei confesso, mas há coisas que não podem ser contrariadas, destinos traçados por escolhas feitas e "nãos" adiados. Só pode ser bruxa a mulher! Mesmo angustiado pelo hábito das pequenas derrotas anteriores, o feitiço vira-se contra o feiticeiro se isto da alforreca funcionar, se bem que isso do feitiço é o que menos importa, porque eu só lhe quero sentir um abraço outra vez.


- Vê lá mas é se não me entornas essa merda toda aqui no carro!


As pessoas lá me vão aturando, nem sei porquê às vezes, serei só eu ou também eles terão a esperança secreta de que um dia, mais tarde ou mais cedo, nascerá em mim um novo homem? Um parto eterno, sem dor maior nem menor, num silêncio que só se desfaz nestas conversas que vamos mantendo com nós próprios. Mas as coisas são o que são, e agora aqui estou eu fiando-me num livro de uma governanta africana, que se não é bruxa, ouve atrás das portas e lamenta o rumo da vida dos outros secretamente, provavelmente uma louca, se é que esse termo significa alguma coisa.

- Está descansado. E não ligues o rádio que isto deve ser feito em silêncio.

Eu e o silêncio, já devia saber que isso é coisa que não existe, que eu bem sei que temos sempre uma coisa cá dentro a traulitar-nos palavras, e se eu me ponho para aqui a martelar sobre o que pensará quem me vir com estes apetrechos, ainda lhe peço para parar e despejo isto na berma da estrada e lá se vai o abraço e a lição àquela mulher.

- Depois admiras-te que te chamem maluquinho!

Pouco importa que me chamem maluco, quando há para aí tantos, aprumados entre 2 paredes de regras intermináveis, com ares de gente respeitável e séria, sorrindo ordeiramente ao destino que lhes está reservado.

- Seja o que deus quiser!

E se ele não quiser nada nem sentir nada? Se não vir nada, ou se não se importa sequer?  Ainda terei direito ao meu abraço?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Relatos de um festival

- Deve saber bem acordar todos os dias com vista para esta baía!

Ia a caminho do castelo quando ouvi isto vindo de um grupo de quatro jovens sentados na esplanada do restaurante Mexilhão.
Gosto de ver Sines assim, vestida com o colorido de um corropio de gente para todos os gostos, ou quase, porque durante estes dias, por aqui, não há lugar a cinzentismos dos velhos do restelo habituais.
A música começou em Português, mas esperava-nos um mergulho nocturno por sons do Continente Americano. Um bom ponto de partida, unir os dois lados do Atlântico com dois palcos a servir de ponte.

- Nunca vi um festival com um ambiente assim!

Uma pessoa derrete-se a ouvir estas coisas, afinal o festival é a minha terra e essa, já não consegue viver sem as músicas que lhe trazem o Mundo por alguns dias.
À saída do castelo,

- Desculpa, ainda vais entrar ou posso ficar com a tua senha?

- Epá, olha há ali uma bilheteira em baixo, se calhar é melhor ires comprar bilhete, sempre davas dinheiro a quem faz isto, e olha que eles bem precisam...

Que raio de gente é esta que nem serve para comprar bilhete para um festival? Para mim o  FMM passa-se no castelo, ou nasce lá pelo menos, porque depois espalha-se dali para todo o lado, como a brisa que nos traz a meio de um concerto o cheiro a maresia.
O parque de campismo cheio, tendas na relva da APS, seres a deambular a toda a hora, por todo o lado, sem rumo aparente, preenchendo até os sítios que nos habituámos a ver desertos, bancos vazios agora acompanhados, canteiros que servem de poltrona, muros que são por uns minutos mesa de jantar e quase aposto que Sines gosta destas aventuras.

- Ai! Ainda agora aqui passou um casal, os dois descalços cada um com a sua garrafa de vinho debaixo do braço veja bem!

- Isso a mim não me faz confusão nenhuma, só não percebo porque é que os concertos da Avenida não são pagos.

Nem eu percebo, mas isso são contas de quem não as sabe fazer. Dois mais dois afinal são três de maneira que me é difícil tentar perceber alguns porquês. Nem estou para isso aliás, que o nosso Presidente diz que isto sim é serviço público, e se é público que se lixe a diferença deste dois mais dois, porque o que se arranjou aqui foi um espírito que não se pode perder e isso não tem preço. Daqui a alguns anos, quando estes jovens que em paz nos invadem forem pais, quando forem chefes, nem que seja de si próprios, quanto irá valer a imagem que guardam da nossa terra?

- O melhor de tudo é que aqui é tudo à borla! Só gastas dinheiro em comida e bebida.

Que isto dos espiritos não tem preço, e a coisa cria-se e depois não apetece nada deixá-la ir, assim de mão beijada à mercê de um prejuízo mais escondidinho.

- Ainda estou para ver o que vai acontecer ao FMM quando o Coelho sair daqui.

Não acontece nada, que o homem lá por ter deixado criar isto não lhe fica assim com o exclusivo e acho que ninguém quer perder este festival, mesmo que não dê dinheiro por x menos y. Ainda não sei como, mas qualquer dia ainda vos provo que a riqueza de um povo não se mede apenas pelo seu ouro em caixa.

- Há uma tenda na pedreira com festa até as quatro da tarde!

- Estes moços até metem medo...

Eu também tenho medo de chegar ao final de Julho e a minha Sines deserta, de bancos solitários, canteiros vazios, noites despidas, os mesmos sítios desertos, como costumam estar sempre, dia após dia. Mas agora passa, quando descer as escadas e me misturar com a maré de gente que inunda Sines, que me inunda a mim, da ilusão de que isto podia ser tão diferente daquilo que realmente é.

Aproveitem!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Meias viagens


É hora de falar de vida, de coisas por fazer, de coisas que já fizemos, de amores que já vivemos, do amor que ainda vamos viver, da terra, do mar, do céu, do pó a que estamos destinados a voltar, numa forma ou noutra, não sabemos, nunca sabemos. Coisas que acontecem, pequenas, grandes, todas diferentes para tantos outros olhares diferentes, de tantos outros ângulos possíveis de ver a mesma coisa. Nunca vamos esquecer os velhos ou novos que perdemos, pelo menos não os que nos alimentaram da ilusão de que as pessoas boas vivem mais tempo e que principalmente, vivem melhor.
E eu aqui, depois de tanta coisa que me aconteceu desde o último post que escrevi. A uns dias de partir em viagem, as coisas parece que se dispersam no ar e surgem de novo quando reparamos que ainda cá estamos. Assuntos que queremos deixar resolvidos, vacinas para pôr em dia, tratamentos às costas que entretanto se desmancharam durante o sono, pesquisas de sítios para dormir, de transportes baratos, dicas que queremos guardar e não conseguimos, projecções antecipadas dos sítios onde vamos estar, e os dias passam assim a muito custo, numa contagem decrescente que a esforço se vai evitando.

- Tenho um feeling que amanhã embarcamos!

Eu também tenho, mas não quero dizer senão depois custa mais. A merda de situações em que eu me meto. À minha frente um candeeiro aceso ilumina a mesa onde pouso o caderno no qual me vejo obrigado a escrever, logo agora que tinha decidido tirar férias disto também. São 2 da manhã em Zurique e eu não quero ir dormir com este corropio dentro de mim. Escrever foi coisa que nunca me deu sono, mas tu já dormes e eu tenho qualquer coisa para arrancar cá de dentro.

- Vais pôr o despertador para que horas?

- Lá para as 8 horas daqui...

Sinceramente acho que nem preciso de despertador, mas é melhor pôr à mesma porque senão é que não durmo mesmo.
Amanhã tentamos de novo embarcar e enquanto isso, aproveitamos para conhecer melhor Zurique, de mochila às costas, agora ainda mais desmanchadas. Cheira-me que ainda vai dar para fazer amigos e dar umas braçadas no canal do rio Limmat com umas cervejas pelo meio.

- Pelo menos conhecemos mais uma cidade...

- Para mim já valeu a pena!

As pessoas mudam, será que as terras também? Ficamos presos às imagens que guardamos, são a nossa vida toda e de certeza que mudam ao longo do tempo. Podemos guardar imagens de coisas que inventámos desses sítios, cirurgias estéticas das recordações visuais que as tornam mais interessantes, que nos tornam mais interessantes. Somos o que vivemos e enquanto vivemos vamos sendo, cada vez mais nós, cada vez mais próximos do que somos suposto ser. Ou não é suposto nada e apenas vamos sendo o que vivemos sem que isso nada acrescente de novo à nossa essência.

- Se eu pudesse passava a vida a viajar!

Se eu pudesse escolhia ser feliz sem meias felicidades, sem meias verdades de bases defeituosas, meias certezas, amores ao meio, viagens pela metade, histórias contadas em duas mãos, de sorrisos escondidos e lágrimas fingidas.
Ficamos assim e cá para mim, se puder escolher só quero ser eu e logo se vê o que acontece.