segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Adeus

Dizias sempre alguma coisa que me deixava a pensar que conseguias ler a minha mente, e que de alguma forma, me conhecias melhor do que aquilo que eu queria que alguém me conhecesse. Metias-me medo porque apesar disso, usavas esse poder para me provocar, como se quisesses testar os meus limites e fazer de mim, só mais um individuo da tua amostra. Calavas o meu desconforto com um sorriso que te enchia a cara e me fazia sorrir de volta. Tinhas umas sardas que pareciam falar comigo e uns olhos com tanta energia que me furavam a alma, num rosto que me pareceu familiar assim que te vi. Talvez num sonho, numa premonição inconsciente da marca deixada pela passagem do teu sabor na minha vida.

- Aposto que não és capaz de sair do carro

Não é que não fosse capaz, mas apetecia-me ficar dentro do carro contigo. Nunca mais te vi e ainda bem que não saí naquela noite escura na serra. Acho que fomos para casa e fizemos amor, pelo menos eu, porque nunca percebi o que sentias por mim. Às vezes lembro-me de ti, havia qualquer coisa entre nós não achas?

- Vamos para o fim do mundo?

Nessa altura ia contigo para qualquer lado, acho que ainda não tinha havido chamadas sem resposta do outro lado, nem desculpas esfarrapadas que eu não queria contrariar, para não desperdiçar o pouco que tempo que me dispensavas. Lembro-me de te ter apanhado uma tarde à porta de casa e me apareceres com o cabelo ainda molhado, num sorriso que te disfarçava as sardas que falaram comigo. Vamos para o fim do mundo que hoje só me apetece estar sozinha contigo, sem um mar de gente a separar-nos, sem desculpas para dar nem perguntas para guardar.

- Não tínhamos combinado ir à praia ontem à tarde?

- Nem imaginas o que me aconteceu

No fim do mundo pus-te o apelido Lisboa, de cabelos louros em vez de negros como sempre a imaginara. Lembro-me que não achaste grande piada à minha metáfora apaixonada, e esboçaste um sorriso falso que fez as sardas fecharam-se num silêncio que me custou a digerir. Acho que nessa altura já tinha deixado de te tentar perceber, eras um fim anunciado que eu apenas tinha que aproveitar até o inevitável acontecer.

- Sai da minha casa!

Levantaste-te sem me olhar nos olhos e saíste porta fora, e lembro-me de ter sentido a tua falta assim que ela se fechou nas tuas costas. Ainda fui atrás de ti para ver se voltavas e te deitavas na cama a olhar para mim, de cara cheia pelo sorriso e as sardas a chamarem-me para um abraço de despedida. Liguei-te no dia seguinte e não atendeste, acho que foi aí que percebi que há coisas que não podemos perder, um último beijo, um olhar que diz adeus com carinho, os nossos corpos  unidos com cada pedaço de pele a despedir-se do outro,

- Adeus!

num final de sabor agridoce, que te fechasse numa pelicula qualquer e te impedisse de andares por aí como mais um espirito à solta.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Um dia conto

- Para que queres esse bicho?

- Que tens tu com isso?

Uma alforreca num saco de plástico transparente cheio de água do mar, do norte, que pelos vistos era melhor para manter o bicho vivo, como  ingrediente de um feitiço daquele livro na cómoda da governanta, uma estranha mulher africana que quase não falava, nem precisava, só ouvia, ouvia tudo. Já por várias vezes me tinha parecido uma esponja de todos os nossos gestos, de todas as nossas frases e expressões, mesmo quando julgávamos estar a sós, como quando a apanhei a ouvir atrás da porta e mais tarde, a falar sozinha no quarto,


- Como é que o menino Pedro ainda é capaz de falar com aquela mulher?


Também não sei confesso, mas há coisas que não podem ser contrariadas, destinos traçados por escolhas feitas e "nãos" adiados. Só pode ser bruxa a mulher! Mesmo angustiado pelo hábito das pequenas derrotas anteriores, o feitiço vira-se contra o feiticeiro se isto da alforreca funcionar, se bem que isso do feitiço é o que menos importa, porque eu só lhe quero sentir um abraço outra vez.


- Vê lá mas é se não me entornas essa merda toda aqui no carro!


As pessoas lá me vão aturando, nem sei porquê às vezes, serei só eu ou também eles terão a esperança secreta de que um dia, mais tarde ou mais cedo, nascerá em mim um novo homem? Um parto eterno, sem dor maior nem menor, num silêncio que só se desfaz nestas conversas que vamos mantendo com nós próprios. Mas as coisas são o que são, e agora aqui estou eu fiando-me num livro de uma governanta africana, que se não é bruxa, ouve atrás das portas e lamenta o rumo da vida dos outros secretamente, provavelmente uma louca, se é que esse termo significa alguma coisa.

- Está descansado. E não ligues o rádio que isto deve ser feito em silêncio.

Eu e o silêncio, já devia saber que isso é coisa que não existe, que eu bem sei que temos sempre uma coisa cá dentro a traulitar-nos palavras, e se eu me ponho para aqui a martelar sobre o que pensará quem me vir com estes apetrechos, ainda lhe peço para parar e despejo isto na berma da estrada e lá se vai o abraço e a lição àquela mulher.

- Depois admiras-te que te chamem maluquinho!

Pouco importa que me chamem maluco, quando há para aí tantos, aprumados entre 2 paredes de regras intermináveis, com ares de gente respeitável e séria, sorrindo ordeiramente ao destino que lhes está reservado.

- Seja o que deus quiser!

E se ele não quiser nada nem sentir nada? Se não vir nada, ou se não se importa sequer?  Ainda terei direito ao meu abraço?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Relatos de um festival

- Deve saber bem acordar todos os dias com vista para esta baía!

Ia a caminho do castelo quando ouvi isto vindo de um grupo de quatro jovens sentados na esplanada do restaurante Mexilhão.
Gosto de ver Sines assim, vestida com o colorido de um corropio de gente para todos os gostos, ou quase, porque durante estes dias, por aqui, não há lugar a cinzentismos dos velhos do restelo habituais.
A música começou em Português, mas esperava-nos um mergulho nocturno por sons do Continente Americano. Um bom ponto de partida, unir os dois lados do Atlântico com dois palcos a servir de ponte.

- Nunca vi um festival com um ambiente assim!

Uma pessoa derrete-se a ouvir estas coisas, afinal o festival é a minha terra e essa, já não consegue viver sem as músicas que lhe trazem o Mundo por alguns dias.
À saída do castelo,

- Desculpa, ainda vais entrar ou posso ficar com a tua senha?

- Epá, olha há ali uma bilheteira em baixo, se calhar é melhor ires comprar bilhete, sempre davas dinheiro a quem faz isto, e olha que eles bem precisam...

Que raio de gente é esta que nem serve para comprar bilhete para um festival? Para mim o  FMM passa-se no castelo, ou nasce lá pelo menos, porque depois espalha-se dali para todo o lado, como a brisa que nos traz a meio de um concerto o cheiro a maresia.
O parque de campismo cheio, tendas na relva da APS, seres a deambular a toda a hora, por todo o lado, sem rumo aparente, preenchendo até os sítios que nos habituámos a ver desertos, bancos vazios agora acompanhados, canteiros que servem de poltrona, muros que são por uns minutos mesa de jantar e quase aposto que Sines gosta destas aventuras.

- Ai! Ainda agora aqui passou um casal, os dois descalços cada um com a sua garrafa de vinho debaixo do braço veja bem!

- Isso a mim não me faz confusão nenhuma, só não percebo porque é que os concertos da Avenida não são pagos.

Nem eu percebo, mas isso são contas de quem não as sabe fazer. Dois mais dois afinal são três de maneira que me é difícil tentar perceber alguns porquês. Nem estou para isso aliás, que o nosso Presidente diz que isto sim é serviço público, e se é público que se lixe a diferença deste dois mais dois, porque o que se arranjou aqui foi um espírito que não se pode perder e isso não tem preço. Daqui a alguns anos, quando estes jovens que em paz nos invadem forem pais, quando forem chefes, nem que seja de si próprios, quanto irá valer a imagem que guardam da nossa terra?

- O melhor de tudo é que aqui é tudo à borla! Só gastas dinheiro em comida e bebida.

Que isto dos espiritos não tem preço, e a coisa cria-se e depois não apetece nada deixá-la ir, assim de mão beijada à mercê de um prejuízo mais escondidinho.

- Ainda estou para ver o que vai acontecer ao FMM quando o Coelho sair daqui.

Não acontece nada, que o homem lá por ter deixado criar isto não lhe fica assim com o exclusivo e acho que ninguém quer perder este festival, mesmo que não dê dinheiro por x menos y. Ainda não sei como, mas qualquer dia ainda vos provo que a riqueza de um povo não se mede apenas pelo seu ouro em caixa.

- Há uma tenda na pedreira com festa até as quatro da tarde!

- Estes moços até metem medo...

Eu também tenho medo de chegar ao final de Julho e a minha Sines deserta, de bancos solitários, canteiros vazios, noites despidas, os mesmos sítios desertos, como costumam estar sempre, dia após dia. Mas agora passa, quando descer as escadas e me misturar com a maré de gente que inunda Sines, que me inunda a mim, da ilusão de que isto podia ser tão diferente daquilo que realmente é.

Aproveitem!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Meias viagens


É hora de falar de vida, de coisas por fazer, de coisas que já fizemos, de amores que já vivemos, do amor que ainda vamos viver, da terra, do mar, do céu, do pó a que estamos destinados a voltar, numa forma ou noutra, não sabemos, nunca sabemos. Coisas que acontecem, pequenas, grandes, todas diferentes para tantos outros olhares diferentes, de tantos outros ângulos possíveis de ver a mesma coisa. Nunca vamos esquecer os velhos ou novos que perdemos, pelo menos não os que nos alimentaram da ilusão de que as pessoas boas vivem mais tempo e que principalmente, vivem melhor.
E eu aqui, depois de tanta coisa que me aconteceu desde o último post que escrevi. A uns dias de partir em viagem, as coisas parece que se dispersam no ar e surgem de novo quando reparamos que ainda cá estamos. Assuntos que queremos deixar resolvidos, vacinas para pôr em dia, tratamentos às costas que entretanto se desmancharam durante o sono, pesquisas de sítios para dormir, de transportes baratos, dicas que queremos guardar e não conseguimos, projecções antecipadas dos sítios onde vamos estar, e os dias passam assim a muito custo, numa contagem decrescente que a esforço se vai evitando.

- Tenho um feeling que amanhã embarcamos!

Eu também tenho, mas não quero dizer senão depois custa mais. A merda de situações em que eu me meto. À minha frente um candeeiro aceso ilumina a mesa onde pouso o caderno no qual me vejo obrigado a escrever, logo agora que tinha decidido tirar férias disto também. São 2 da manhã em Zurique e eu não quero ir dormir com este corropio dentro de mim. Escrever foi coisa que nunca me deu sono, mas tu já dormes e eu tenho qualquer coisa para arrancar cá de dentro.

- Vais pôr o despertador para que horas?

- Lá para as 8 horas daqui...

Sinceramente acho que nem preciso de despertador, mas é melhor pôr à mesma porque senão é que não durmo mesmo.
Amanhã tentamos de novo embarcar e enquanto isso, aproveitamos para conhecer melhor Zurique, de mochila às costas, agora ainda mais desmanchadas. Cheira-me que ainda vai dar para fazer amigos e dar umas braçadas no canal do rio Limmat com umas cervejas pelo meio.

- Pelo menos conhecemos mais uma cidade...

- Para mim já valeu a pena!

As pessoas mudam, será que as terras também? Ficamos presos às imagens que guardamos, são a nossa vida toda e de certeza que mudam ao longo do tempo. Podemos guardar imagens de coisas que inventámos desses sítios, cirurgias estéticas das recordações visuais que as tornam mais interessantes, que nos tornam mais interessantes. Somos o que vivemos e enquanto vivemos vamos sendo, cada vez mais nós, cada vez mais próximos do que somos suposto ser. Ou não é suposto nada e apenas vamos sendo o que vivemos sem que isso nada acrescente de novo à nossa essência.

- Se eu pudesse passava a vida a viajar!

Se eu pudesse escolhia ser feliz sem meias felicidades, sem meias verdades de bases defeituosas, meias certezas, amores ao meio, viagens pela metade, histórias contadas em duas mãos, de sorrisos escondidos e lágrimas fingidas.
Ficamos assim e cá para mim, se puder escolher só quero ser eu e logo se vê o que acontece.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A morte saiu à rua

No passado Domingo, infelizmente, tive uma notícia que me deixou muito abalado. Sem saber explicar estive muito mal-humorado na noite anterior, e mesmo a noite de sono não me deixou com melhores modos. Pensava eu que era cansaço ou mais uma daqueles momentos em que me apetecia ter o Mundo só para mim, talvez fosse, não sei…

O meu telemóvel tocou duas vezes, e em seguida como não atendi, tocou mais duas o do trabalho, o que sendo Sábado já não a agoirava boa coisa. Ligo de volta e do outro lado uma voz que me é muito querida, dá-me a notícia:

- Morreu o Velho Peniche, e o funeral é hoje às 18 horas.

"Velho Peniche", era deste modo que o tratávamos lá por casa, pois isto de ser mais velho deve ser um orgulho e não um defeito. E neste caso, era realmente sempre com muito carinho que falávamos dele.

Pelo que me contaram já à alguns dias que estava num Hospital em Lisboa, muito debilitado. Nessa altura fiquei muito irritado, como é possível não ter sabido disso? Aqui tão perto de mim e eu não o fui visitar, dar-lhe um pouco de apoio, ou simplesmente cumprimenta-lo… e eu que não o via há tanto tempo…

O Velho Peniche, sem eu saber explicar porquê, sempre foi uma figura muito importante para mim, aliás saber sei, mas é estranho como é que algumas pessoas nos marcam tanto durante a nossa vida. Ele foi sem dúvida uma figura incontornável no meu crescimento, sempre com o seu ar sereno, figura esbelta e bem composta, desde muito novo me habituei a vê-lo à porta da Piscina ou a passar nas ruas de Sines, sempre com uma voz calma e um olhar que nos transmitia uma serenidade e uma noção de cidadania espantosa.

Aí está alguém que partiu cedo demais. Pode haver quem diga que já tinha idade para deixar o nosso mundo, que já tinha feito a sua parte, que já tinha deixado o seu legado, é bem verdade, mas de qualquer modo, algumas pessoas deviam ficar connosco só mais um bocadinho, pois têm ainda muito para nos ensinar e para dar.

Sr. Peniche… não me lembro da última vez que o vi, e muito menos do que falámos, mas tenho a certeza de que será mais uma daquelas pessoas que quando chegar o meu dia, e espero que ainda demore, pois tenho muito para fazer, vai lá estar onde quer que seja para me receber:

- Bem-vindo, não tenhas medo que isto até é bom!

E nessa altura, tal como acontecia sempre que o via, percebo que com calma e paciência tudo é levado a bom porto!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A eternidade das palavras

Ainda hoje tinha passado pelo seu blog, ia lá espreitar quase todos os dias, à espera de novas palavras que me pudessem enriquecer, como o fizeram quase todas as que li dele. Nos últimos tempos nada de novo porém, apenas excertos de discursos antigos, de entrevistas já gastas e de frases passadas, nada de novo, tal como a morte que lhe levou o corpo, essa, com a idade da própria vida.
Eu sei que pessoas destas ficam eternamente gravadas nas suas palavras, impressas em páginas que de vazias e brancas passaram a sonhos e epopeias, a histórias que nós sozinhos nunca seríamos capazes de imaginar, mas de ora em diante, e é isso que me dói, não mais teremos a sua reacção a acontecimentos presentes, no entanto as suas palavras moldar-nos-ão para sempre só de as termos ouvido ou lido.
Morreu Saramago e tocam os sinos lá na igreja da aldeia da Azinhaga que o viu nascer. Porque há pessoas que quando falam nós ouvimos, que quando escrevem nós lemos depois, ou deveríamos todos ler, pessoas que nos preenchem sem que sequer as conheçamos. Já viram o valor que isso tem?
Morreu Saramago, mas a suas palavras continuam vivas até que se nos apague a memória e morramos nós também. Por esta hora ele já descobriu o que há para além da efemeridade da vida, pena não nos poder escrever um livro para contar como é depois de tudo isto, dificilmente alguém o contaria melhor.
Epopeias de passarolas voadoras, de amores singulares, de cegueiras generalizadas, de mortes interrompidas, de penínsulas a naufragar. Saramago não era só um escritor que contava histórias, mas sim alguém que despertava consciências pela contradição da ideia feita, um inconformado com olhar de criança curiosa, de língua afiada e pensamento próprio.
Saramago não é só nosso, é do mundo inteiro, mas eu vou guardá-lo sempre como um Português que apesar de exilado da estupidez, nos fez mesmo crescer três centímetros, que nunca desistiu de agitar as águas e despertar consciências adormecidas neste nosso País à beira mar plantado e que por isso, nunca desistiu de nós, Portugueses.

"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever", disse ao receber o Prêmio Nobel, em 1998, citando o avô, analfabeto.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O sono

- Não apagues a luz do quarto!

- Eu não apago. E estou a passar a ferro aqui no corredor.

Depois de me dar um beijo de boa noite. Aposto que só ficava até eu adormecer, que de vez em quando senti-a a espreitar-me para ver se eu já dormia.
Sempre vivi com os meus demónios, nessa altura eles eram monstros, metade humanos conhecidos, metade animais, cavalos, lobos, burros, porcos, um jardim zoológico de aberrações a atormentarem-me até que o sono chegasse e me levasse com ele para parte incerta. Havia dias piores que outros, como hoje afinal, às vezes ela apagava a luz, encostava a porta e eu não dizia nada e ficava ali, tapado com as mantas, imóvel, para que nada nem ninguém sentisse a minha presença.

- Eu sei que tu lutas contra o teu lado negro!

Há frases que quando são ditas me ficam a ecoar durante algum tempo. Uma frase que só um amigo sabe dizer, uma resposta inesperada, uma expressão ouvida pela primeira vez.
Hoje já não são monstros os meus demónios, são mais ideias e sentimentos, resquícios da infância mimada e rebelde.

- Isto é obra do Bruno!

Nunca era grande obra, um copo partido escondido a um canto, uma garrafa de azeite partida, qualquer coisa estragada.

- Mas porque é que hei-de ser eu e não o Zé Carlos?

Nem valia a pena responder, que eu já sabia a resposta e até gostava dela.
Mas os demónios não se escondem assim e acho que escondê-los seria esconder-me a mim também e isso eu não quero.
Hoje já não são monstros, são outras coisas, mas aparecem quase sempre à noite, quando estou sozinho ou quando me deito sem sono. Habituei-me a deitar-me quando já não suporto o sono, ou a adormecer no sofá. Lavo os dentes com antecedência e ponho-me a ver televisão ou a passear pela internet, como que a dizer, ainda cá estou, não se esqueçam de mim se cá vierem. Se calhar o medo dos monstros fez-me perder o prazer de dormir, ou isso ou o outro medo, o de desperdiçar parte da vida a dormir e perder-te quando ainda me falta encontrar tanta coisa.
Se calhar é melhor não apagar a luz, que assim se tu passares aqui ainda pode ser que toques à campainha e me ofereças mais umas horas de vida. Não consigo deixar de sentir que dormir é como perder um bocadinho da vida.

- Ainda vais ficar acordado muito tempo?

Até conseguir ter os olhos abertos e não apagues a luz, que ainda pode ser que passe alguém.

sábado, 29 de maio de 2010

Avó Hortense

Matava as cobras com uma enxada e depois ia mostrar-mas, de sorriso matreiro a meter-me medo. Escolheu um homem, casou, teve filhos e depois ele partiu, sem avisar. Nem cheguei a conhecer o meu avô materno, lembro-me dela sempre sozinha com um brilho nos olhos ao ver os netos.

- Cada vez tás mais parecido com o teu avô...

Sentia-lhe a tristeza no olhar quando ela me dizia aquilo. Uma pessoa tem que se agarrar a qualquer coisa e talvez ela veja em nós um bocadinho do que perdeu tão cedo. Afinal não estava sozinha, nunca a deixámos estar.
Contava-me histórias de um admirador secreto que à noite virava um monstro qualquer e subia à laranjeira que ainda lá está para a espreitar e das bruxas que se juntavam no casal ali ao lado. Um dia o marido de uma queimou-lhe as pegadas e no dia a seguir foi descobri-la coxa, de pés queimados. Nunca mais me esqueço destas histórias.

- Vocês hoje têm tudo!

E eu a querer uma prancha nova e aquela bicicleta que vi na loja de BTT.

- No meu tempo uma sardinha tinha que dar para quatro pessoas...

E aposto que se lembrava do meu avô a beber vinho para ajudar o pão a ir para baixo. E eu com um prato cheio à frente, a queixar-me por ter que comer as couves enquanto as punha na borda do prato.
E as paredes que quando chegava o sol ela caiava, por obrigação ao amor que nunca perdeu. As paredes da casa que o meu avô ajudou a construir ainda lá estão, a assinalar de onde nós viemos, porque não somos só feitos de memórias.

- Agora já nem para trabalhar eu sirvo. Este corpo só anda aqui a estorvar...

E eu rio-me porque as pessoas realmente valiosas nunca têm noção do que valem para os outros. Uma alma santa, logo eu que não acredito em santos. Não lhe vejo ponta de maldade, nunca vi. Às vezes um protesto ou outro, mas afinal, como se sentirá uma pessoa quando perde a independência depois de velha?

- A minha casa é lá no cemitério, ao pé do teu avô.

Um misto de revolta e de compreensão, afinal que sei eu da saudade que ela sente do meu avô? Mas depois sinto-lhe tanto medo da morte... talvez hesite entre as saudades dos que ainda cá ficaram e a outra a que se calhar já se habituou.
Nós vamos aproveitar o que nos resta contigo, que a casa está lá guardada mas por enquanto fica mais um bocadinho, porque o que é bom não tem sempre que acabar cedo demais.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O caos

Estou para aqui dentro do café que me tem servido de refúgio, mas parece que ainda sinto na pele a brisa que sopra neste cabo onde parece que estou destinado a voltar.
Há lugares e pessoas que parecem destinadas a deparar-se no nosso caminho.

- O meu amigo para a semana apresenta-se em Sines.

E a minha cara sem saber o que dizer. O que eu não pagava para ver a minha cara naquele momento.
É como quem ouve outro dizer que de um momento para o outro só pode ver a namorada ao fim de semana, com as horas e os minutos contados. Cada momento sagrado, mas sem se conseguir ser feliz descansado.
Não consigo deixar de sofrer por antecipação. Na semana antes do jogo do titulo, a vista a tremer e uma crise de caspa, mas ao menos aí passou depois do jogo, mas agora não. Acho que foram poucos os momentos em que não me senti sozinho neste mundo, mas aqui, apesar da presença constante dos meus pais, sinto um vazio que dificilmente os fins-de-semana em Lisboa compensarão. Não consigo deixar de exagerar os sentimentos.

- Se calhar vou para Moçambique!

E parece que do outro lado,

- Como é que vais se estás preso aqui?

Não vejo corda, nem corrente, nem suporte que me fixe aqui, mas realmente sinto-me preso a qualquer coisa.
Vivo numa ditadura de palavras que vagueiam dentro de mim, num caos confinado às paredes do meu corpo. Quem me conhece sabe que de vez em quando,

- Desaparece-me daqui!

Quando afinal quero que fiques. Às vezes deixo sair o que quero prender e quem me conhece mesmo bem, sabe que às vezes prendo o que quero libertar.
E as palavras num ruído caótico dentro de mim sem me deixarem ouvir nada à minha volta.

- Estás a ouvir?

- Não, não estava aqui desculpa...

Tenho uma avó que é um dos maiores mistérios que conheço. Vive sozinha em si própria e só fala o estritamente necessário, às vezes um suspiro. Imagino que esteja a pensar no amor que a deixou demasiado cedo. Podia ter ficado azeda, revoltada com tamanha injustiça que a separou do homem da vida dela. Ainda eu me queixo com um exemplo destes na minha vida.

- Ainda sinto a tua falta. Não me sais da cabeça...

E depois vejo a minha avó e a coisa melhora. E um suspiro meu, que também tenho direito. Todos temos direito a um suspiro de vez em quando para expulsar o mal cá de dentro.

- A suspirar? O que é que se passa?

- Nada... Não se pode suspirar? Preferes que grite?

- Não. Suspira lá à vontade!

Que em forma de suspiro elas não saem daqui e a ditadura continua sem que ninguém note o caos que passeia por dentro de mim.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A certa altura

Lembro-me de quando era puto e vivia sem preocupações nem responsabilidades, preocupado apenas com os jogos que queria ganhar e com as miúdas que queria impressionar.

- Queres ser minha amiga?

Assim, sem rodeios nem receios de qualquer espécie.

- Queres ser meu amigo?

Quando o rapaz parecia capaz de chegar a casa depois da hora marcada, com arranhões nos braços e a roupa como se tivesse vindo da guerra.
Tínhamos um arbusto que servia de porta de entrada num mundo alternativo, de limões desviados na mercearia e doces comprados com o dinheiro dos avós. Guardávamos aquilo como um tesouro, protegido de outros arbustos também transformados num mundo dos pequenos que queriam ser grandes e maus. Miúda não entrava ali, que eu soubesse ao menos, porque nessas coisas nunca se sabe o que a paixão, mesmo infantil pode fazer. A paixão sempre esteve presente na minha vida, acho que não me lembro de muita coisa antes do meu primeiro feitiço sentimental.

- É uma moedinha para o santo António!

A lata que é preciso ter... Será que com a idade perdemos a lata?
Juntávamos os trocos numa garrafa de água cortada pela metade e aquilo dava para nos encher de pastilhas, rebuçados e coca-cola e ainda sobrava para mantimentos dos arbustos durante uns tempos.

- Queres ser minha namorada?

E andávamos para ali, de mão dada pela rua fora como dois tontos apaixonados, eu a esconder dos amigos, ela a fazer questão que a coisa se oficializasse, a apertar-me a mão e a fincar o pé. Sempre gostei de miúdas assim, que jogam de igual para igual.
No fim de semana andei a vasculhar álbuns de fotografias antigas, talvez daí estas recordações. Quase nunca sei o que vou escrever até escrever a primeira frase, prefiro assim, as coisas fluem melhor quando não são planeadas.
Hoje também tenho o meu mundo paralelo, na porta de entrada aqui da Afonso III, mas é tudo legal, pago renda, recebo um recibo e ainda me devolvem parte do dinheiro todos os anos. É tudo muito complicado, ao menos aqui dentro é tudo bem mais simples.

- Vais tar em casa à noite?

- Epá, não sei...

Sem explicações nem justificações, essa é a parte boa que se ganha com os anos. E a experiência, mas essa às vezes chateia, faz-nos pensar demais e às vezes em própria defesa, perdemos a oportunidade. Mas ganhamos outras, descobertas por entre um cortinado aberto ou uma porta encostada que nos alerta ao sopro de uma corrente de ar.
Acho que trinta e cinco anos é a melhor idade. O arbusto mal de mim se não o tiver, os doces e as guloseimas são diferentes e as miúdas acho que já não acham muita piada a essa tanga de querer ser amiga, mas não sei, a certa altura deixei de perguntar...

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Demora

A tristeza é uma cabra velha. Aparece como quem não quer a coisa e deixa-se ficar por ali, não liga a sinais nem a palavras e só vai embora à força das atitudes.
A felicidade, uma miúda gira que chega e parte num suspiro breve, que queremos que demore sempre mais.
Deixa-se estar ali a velha, com um espelho de superfície perfeita na mão, que despe todos os nossos defeitos ocultos, todos os ângulos mortos e todas as arestas falhadas. Num suspiro se instala sem que se vá no seguinte e mesmo que aquela miúda gira passe, ela fica, de espelho apontado e olhar mortiço. A velha tem chagas, que precisam de tratamento, a outra não fica assim, não gosta, nem nós queremos que ela apareça sequer. Uma de surpresa, com hora marcada ou daqui a uma semana a qualquer hora, sem que nos pergunte se pode vir, a outra cheia de timidez, fugindo ao que recusa enfrentar.
Acha-se boa demais.
Gira, mas snob o raio da miúda.
Uma cola-se na sola do sapato, a outra escorrega-nos por entre os dedos. Traz-nos as dúvidas e as inseguranças, descobre-nos os prós e os contras que preferíamos não saber, e ensina-nos a viver com ela de braços atados na corda bamba. A outra passa e sorri, mais umas vezes e já pisca o olho, até que um dia pára ali perto. Ao inicio ainda nos vemos a nós, despidos, inseguros na nossa nudez púdica a desviar o olhar, com medo que ela nos veja as fraquezas, que nos descubra os defeitos.
Até que um dia a olhamos nos olhos e no outro já lhe piscamos o olho, sorrimos e ela fica mais um pouco até partir. Talvez da próxima sejamos nós a procurá-la em vez de ficar ali à espera, à mercê do raio da velha e do seu espelho de superfície perfeita. Chegamos e sorrimos-lhe. Perguntamos o nome e dizemos o nosso num sorriso que dispensa espelhos, dizemos que é um prazer e é mesmo, sentir-lhe a pele das mãos, sentir-lhe o perfume da pele e descobrir um sorriso no olhar. E um vento há-de vir que sopra a velha dali para voltar com aviso, mas da próxima por menos tempo que eu sei, com hora marcada para partir mas ainda sem hora para voltar.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De Sines

Já foi terra que deu muita e boa uva, mas hoje, parece que a parra cobre a cepa e não deixa a uva crescer.
E tudo fica na mesma, porque para podar não parece haver ninguém e os que dizem que o fazem, foram mal ensinados.
Mas não é de cepas nem de uvas que vive a nossa terra (sinto-a sempre mais minha quando estou com ela), é de mar e de peixe e do corpo de muitos.
Não sei se seria capaz de voltar a estar em Sines a tempo inteiro, pelo menos assim, com ela perdida e abandonada, refém do conformismo de alguns, presa pelo hábito de outros que lhe trazem tão pouca alegria. O sol brilha e ilumina-a e ela é sempre bonita, mesmo com as ruas moribundas e as encostas mal aparadas, mas são as pessoas que a fazem, são elas que lhe dão vida e ela vive tão pouco hoje em dia. Chega a dar dó um sitio assim tão mal acompanhado. Para os que querem ou podem é mais fácil sair e visitá-la de vez em quando, para os que ficam é mais fácil fechar os olhos e tomar como dela os defeitos de outros, no fundo, somos todos culpados.
Os capatazes que a regem, esses, vão de mal a pior. Antigamente vestiam-se de vermelho, contra tudo e contra todos, sem perceberem que contra ela também. Hoje um grupo de gente sem ideais, à mercê de um homem que vira para onde quer que o vento sopre, parecendo agora soprar para outros que de honra e de palavra nada parecem saber.
O presente nada de bom augura para o seu futuro, salvo raras excepções e pequenas pérolas que a destacam pontualmente das outras terras. Mas nada ganhamos com o pessimismo, por isso eu deixo-o para trás, porque escrevo numa dessas excepções, quem sabe uma pérola, sem saber o que fiz para merecer fazer parte dela. Vejo-a como um apeadeiro no qual já não passam comboios e que agora serve de palco aos que não têm voz e precisam de falar e ao que parece, até os seres mais inesperados a ela recorrem em altura de desespero. E ela aceita todos, de braços abertos e sorriso na cara, tal como a terra onde nasceu, erguida de frente para o mar, nas suas artérias sinuosas em que se perdeu, mas nas quais sei que se voltará a encontrar.

no "estação de sines" por Bruno Leal

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A ladeira

Às vezes tenho destas coisas. Lembro-me de alguma coisa que quero fazer e depois só descanso quando a faço mesmo, nem que seja sozinho, como ali, naquele sitio.
As pernas a parecerem pesar o dobro do que costumam pesar, de bicicleta ao lado naquela ladeira que parecia não terminar. Barulho, só o dos pássaros a cantar, se é que a isso se pode chamar barulho, por entre a minha respiração esforçada e os meus passos arrastados.
No conforto de um muro ali à beira da estrada, de costas assentes no branco da cal e pés cravados na areia batida, alguém falou comigo quando eu já com a cabeça noutro lado me preparava para seguir viagem

- Está tudo bem consigo jovem?

Que bem me sabe quando as pessoas me tratam por jovem ou menino. Do outro lado do muro um senhor de idade limpava a testa com as costas da mão esquerda que segurava a boina. Sempre gostei de boinas

- Bom dia! Sim tá tudo bem obrigado!

E um sorriso que me parecia sincero, mas não sei que já vejo mal ao longe

- Como o vi aí encostado há tanto tempo, pensei que estivesse mal disposto

- Pois... encostei-me para descansar, que esta subida parece que não acaba e dei por mim a admirar a vista e a pensar na vida. Mas tá tudo bem, já me ia fazer à estrada.

Na outra mão um saco branco que me parecia de adubo, que largou dentro de uma caleira já seca ao aproximar-se. Não parecia ter menos que 70 anos

- Eu sei que custa porque a vida inteira a subi também. Mas só até aqui, ou daqui até lá acima, nem sei se alguma vez a subi toda de uma vez só. Normalmente paro aqui um bocadinho... Nisso somos parecidos veja lá!

E uma gargalhada sentida que partilhámos os dois

- Viveu aqui a vida inteira?

Um silêncio e um olhar que se ausentou por instantes

- Sim, esta casa já era dos meus pais veja lá...

Achei estranho. Afinal tinha a ideia que antigamente se casava porque tinha de ser e que normalmente se saía de casa dos pais com a respectiva já semeada.

- Olhe eu é a primeira vez que aqui venho mas este sitio faz-me sentir bem, apesar do cansaço... Sou da cidade e sempre vivi convencido que para além daquilo nada interessava, mas agora com o passar dos anos já vejo o campo de outra maneira. Qualquer dia ainda me faço seu vizinho!

Com os olhos a brilhar

- Isso é que era grande coisa! Por aqui quase não há jovens. Há por ai 4 ou 5 crianças, mas assim que chegam à idade de trabalhar fogem daqui como o diabo foge da cruz! Quando andam na escola já os vemos pouco, de maneira que isto aqui é só velhos chatos durante o dia e à noite, dorme-se para apanhar o fresco da manhã.

- O senhor a mim não me parece chato nenhum. Eu gosto muito do sentido de humor dos velhos, acho que como já falaram e já disseram tanto, sabem sempre melhor do que nós o momento certo para falar. Como a oportunidade faz o ladrão, conseguem sempre roubar-me um sorriso, mesmo que escondido, quando o assunto é sério.

- Isso diz você que parece boa pessoa, mas nem todos pensam isso que eu sei. Mas olhe que é melhor seguir viagem que o sol já aperta. Se quiser encha aqui o cantil que a água sai fresquinha, ao menos isso.

E com isto virou costas e pegou na saca de adubo que eu já julgava esquecida. Se calhar com a idade o nosso horário biológico encurta as folgas e ele já sentisse que eu o estaria a distrair do essencial. Talvez já se tivesse distraído tantas vezes que agora tal lhe seria impossível.

- Obrigado mas ainda tenho o cantil cheio. O médico bem me diz para eu beber muita água, mas nem sempre apetece...
Mas é isso mesmo! Vou-me mas é fazer à estrada. Soube-me bem esta paragem aqui a meio da ladeira.

- Vá! Faça boa viagem de volta à cidade. Mas vai continuar a subir a ladeira?

- Normalmente acabo aquilo que começo. Depois vou à volta que eu almoço tarde!

Com a saca de adubo esquecida de novo, levanta a mão com que ajeitava a boina e num sorriso

- Faça boa viagem e até à próxima!

E eu com pena das palavras que acabaram por não ser ditas e com tanta curiosidade para descobrir as que ainda se dirão

- Até à próxima!

sexta-feira, 26 de março de 2010

O passado

Apetecia-me descobrir alguém de quem gostasse realmente, assim à primeira, sem dúvidas nem incertezas. Um olhar cúmplice de uma quase desconhecida, sem pequenos tiques que me afastem sem saber e que só percebo no dia seguinte, quando prefiro estar sozinho.
Estás preso ao passado e, eu a concordar com cada palavra e a inventar outras. Tens medo de arriscar e ouvi dizer que quem não arrisca não petisca.
Preso à imagem do meu avô, de boina ao sol, encostado à parede da casa que hoje vive sozinha num silêncio que me magoa. Às vezes passo lá, sem ninguém saber. Estaciono o carro e fico ali uns minutos a recordar como aquilo era e, acabo sempre por sentir que ele está ali comigo. Depois ainda segue comigo no carro, em silêncio, até que desaparece e eu sozinho de novo.
E o meu primeiro beijo a sério, naquelas escadas da praia numa noite fria de inverno, que usei como desculpa para os meus tremores que só pararam depois do terceiro e de um abraço. Acho que tremi de todas as vezes que beijei alguém de quem gostava mesmo pela primeira vez. Vi-a há uns anos atrás, tão diferente, o mesmo sorriso, a mesma voz, mas um olhar tão desconhecido que não me deixou reconhecê-la.
O dia em que fui para o hospital com uma tampa na garganta e o amor que senti da minha família que me acompanhou assustada. No meio de tanto pensamento fúnebre e dos tablóides póstumos que imaginei, que bom que foi sentir o medo deles em me perder.
A primeira prova que ganhei, em Montemor, numa piscina colorida que ainda hoje lá está. Agora passo lá de carro e parece que estou um bocadinho em casa, dentro dos muros que escondem a água em que depois desse dia não me lembro de ter nadado.
A primeira surfada, em São Torpes, com as barbatanas de caça submarina e a suntalon amarela a defenderem-me do medo que senti. Escondi-o de todos e ninguém reparou, mas o medo, esse eu não esqueço, estou preso a ele e acho que ele me defende.
Estás preso ao passado e, eu a pensar no primeiro dia sozinho em Lisboa e nas lágrimas que caíram quando me fui deitar naquela noite.
Aquela mão na minha perna, naquela estranha madrugada de natal em que o pai natal disfarçado de cúpido, a aproximou de mim para nunca mais sair.
Estou preso ao passado e tu estás presa a quê? A nada se calhar, que há pessoas que não querem sentir que se lembram das coisas que magoam.
É estranho tudo isto. Esqueço-me de tantas coisas e outras estão comigo a toda a hora. Não têm tempo nem espaço, apenas existem e não se esquecem. Logo tu a dizeres isso. Tu, de quem gostei não sei se à primeira, mas de certeza que à segunda, sem dúvidas nas certezas que me disseram que queria estar contigo no dia seguinte, sem pequenos nem grandes tiques, que me pudessem levar a querer estar sozinho amanhã.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O tempo

Há que tempos que não nado. Uma relação tão longa e hoje está assim, quase apagada pelo tempo que entretanto passou. Lembro-me tão bem do fim, naquela piscina de Loulé em que perdi pela primeira vez a minha prova para outro. O cansaço de tantos anos e a vinda para Lisboa afastaram-me de ti quando percebi que foi por egoísmo meu que durámos tanto. Egoísmo ou carência que precisava de ego cheio, as duas tão tenuemente ligadas e no entanto tão diferentes, uma ignorada, a outra escondida pela tua presença constante que me ia preenchendo os vazios sentimentais. Que a natação não eram só as vitórias e o respeito e admiração de alguns, eram os amigos, os amores, as viagens e as histórias que se haviam criado e que prometiam ainda mais. Estávamos ali todos os dias, às vezes de manhã e à noite, enfiados dentro de água com o som constante do bater de pés daqueles vinte ou trinta adolescentes, de hormonas felizmente acalmadas pelo cansaço dos quilómetros que nadávamos. Formávamos uma corrente dentro de água e, às vezes, para descansar, deixava-me ir sem fazer força, aproveitando o ciclo que se criava com o constante movimento da minha equipa. Ali estávamos num mundo à parte, só nosso, as regras de fora pouco contavam. O respeito era para ser conquistado e os queixinhas eram eternamente lembrados como bufos, incapazes de se defenderem sozinhos e, a pouco e pouco, excluídos. O medo confundia-se com o respeito e com a amizade de alguém que de repente, sem nada em troca, nos defendia de outros e nos aprovava o respeito que fazia tudo funcionar.
Aquele baloiço em Estremoz, aquela carta da miúda mais gira da outra equipa, aquele beijo nas escadas da praia, as mãos entrelaçadas no escuro da carrinha em viagens que eu não queria que terminassem. Ainda hoje as viagens de volta me parecem sempre mais curtas que as de ida, ainda hoje sinto o cheiro a cloro de vez em quando. Lá na piscina do ginásio não usam cloro, devem meter outro produto qualquer e aquilo nem me parece uma piscina, não cheira, não sabe e não tenho a minha equipa a fazer-me deslizar na corrente que criámos. Alguns não os vejo há anos, desapareceram, de vez em quando alguém que os vê, às vezes um reencontro inesperado, mas doze anos depois tudo tão diferente, os sentimentos vazios, a estranheza de uma pessoa que já não sabemos se é a mesma sequer, sem saber se nós próprios somos os mesmos e, um virar de costas com promessas de um jantar, de um reencontro que preferimos idealizar que realizar, talvez com medo de descobrir que nos tornámos todos tão diferentes.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Isto da Terra

Já cansa esta dúvida que paira sobre nós humanos.
Se os nossos actos passados e presentes, terão ou não influência nas alterações climáticas que verificamos ano após ano, julgo que ninguém saberá. Apenas suspeitas e meias certezas que nos indicam prenúncios nos quais não queremos acreditar, que recusamos lascivamente a cada novo capricho, a cada passeio de carro sem destino, a cada luz por apagar, a cada levantar de ombros resignado. Não, não sou utópico, nem tão pouco quero ser, não quero andar menos de carro, nem tomar banhos mais curtos, mas convém que falemos sobre isto.
Afinal, quantas relações terão acabado com a negação de um, perante os mais ou menos evidentes sinais do outro?
Valerá a pena dedicarmos boa parte dos nossos esforços, no sentido de descobrir os porquês desta aparente alteração da habitual quietude do nosso Planeta. O degelo dos pólos e a consequente subida do nível do mar, que logicamente provoca uma maior pressão sobre o solo, poderá originar sismos e erupções mais frequentes? E que efeito terá tudo isto nas correntes oceânicas e na alteração do clima a que nos habituámos até aqui, que tomámos por garantido, assim, de forma tão sobranceira?
Felizmente, mesmo que a conta gotas, assistimos a um cada vez maior desenvolvimento de novas energias e de novas esperanças, que poderão salvar um casamento, que até aqui, imaginávamos harmonioso. Não sei se teremos ouvido com atenção o outro lado da barricada, que as bombas a pouco e pouco afastaram e que nos desabituámos de respeitar, pensando que à falta de queixas, tudo estaria bem. Durante séculos, talvez milénios, sempre atentos e respeitadores de cada sinal, de cada palavra, de cada gesto que a pouco e pouco, fomos menosprezando, confundindo talvez o eu que nós somos, com o nós que deixámos de merecer. Será tarde de mais, ou tudo não passará de uma pequena crise, não interessa, talvez não passe mesmo de um destino já traçado, que nos impede de continuarmos o que começámos sem nos darmos conta, sobrevivendo até aqui. Mas não vale a pena ser dramático que as coisas não estão para isso, a acabar, acabemos com dignidade. Eu não quero acreditar, gosto demasiado da vida para conseguir viver com essa dúvida permanente, mas, às vezes lá vem ela a tapar-me o sol que me está a saber tão bem e a fazer-me tremer num arrepio de nível 8 na escala de richter.

sábado, 6 de março de 2010

Memórias

Convenhamos, o meu problema com as mulheres já vem de trás. É coisa de escola primária e da minha primeira paixão. Ela era morena e tinha um corte de cabelo geométrico, com franja, ainda hoje gosto disso, chamava-se Sónia, mas já não me lembro da cara dela. Apenas uns ligeiros traços da última vez que a vi nas escadas do prédio, uns anos depois de me ter mudado.
Olá! Com um sorriso a acompanhar e eu,
Olá! seco e de voz grave a fazer-me homem, incapaz de lhe dizer que, de vez em quando, no recreio em Sines, sentia a falta dela.
Nunca mais a vi desde esse dia. Às vezes lembro-me daquela tarde que andei a brincar no quarto dela e acabámos de mão dada. De vez em quando, no intervalo da escola a saltar à corda de rabo de cavalo e eu a ver, enquanto os meus amigos me chamavam para um jogo qualquer.
Quero lá saber de jogos!
E virava costas para brincar com eles, a ver se esquecia o jogo que mais temia, distraindo-me com a adrenalina de quem joga futebol de calções, num piso de alcatrão e gravilha quando se tem 6 anos. Mas nem isso me tornava imune àquela sensação incómoda, que ainda hoje sinto quando me lembro de ti. Depois percebi que não eras tu, era eu, já mais tarde, quando senti o mesmo pela Sofia naquele balouço de Estremoz.
Não é de hoje, já vem de trás este meu problema com as mulheres, com certas mulheres apenas, ao menos isso. De vez em quando o nó no estômago, as defesas que se criam a recomendarem-me a escolha criteriosa das palavras a libertar, a ver se escondo o mau feitio que me deu a alcunha, se me protejo a mim, daquele sorriso, daquele olhar, daquele ser. Hoje já não, não sei o que se passou, mas algo terá sido por certo, porque hoje sou igual para todos, nem mais nem menos, talvez mais alguns sorrisos quando estou contigo, mas isso, é natural. Talvez tenha sido a imagem daquele meu amigo, ou ex-amigo, de duas caras, uma de garanhão com os amigos, outra de puritano com as amigas, que eu estranhamente não reconhecia, que me fez jogar assim, sem truques. Posso perder mais vezes, é certo, mas ao menos vivo de consciência tranquila e com a certeza de que quem gosta de mim, não gosta de outro qualquer que não existe.
De ano a ano, passo pelo prédio onde morava quando me apaixonei por ti, procuro uma miúda morena de corte de cabelo geométrico enquanto dou a volta ao prédio, lembro-me de quando me escondia naquelas varandas do rés-do-chão quando os ciganos vinham, mas de ti nem um sinal. Entro no carro, ligo o rádio e sigo viagem e, a tua memória desaparece tão rápido como surgiu, até outro dia, até outra hora qualquer que nunca sei quando é. Pode ser que nessa altura tenha alguém ao meu lado que valha a pena ter, da última vez que isso me aconteceu não virei e não passaste apenas de um pensamento efémero e volátil na minha mente, logo afastado por uma mão na perna e um sorriso cansado, talvez um beijo. Mas a mim, não a outro qualquer que não existe.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A casa


Sentado na mesa redonda da sala que tomei como minha, há 2 anos e pouco mais de um mês, consigo ver tudo para a frente e quase tudo para trás.
Nos primeiros dias, eu sozinho, esmagado entre as 4 paredes deste rectângulo, que agora me abraça com experiências e memórias de dois anos marcantes na minha vida. Lembro-me da primeira noite que aqui dormi. Fez-me bem a solidão nessa altura, ainda hoje me faz. Por motivos diferentes é verdade, porque afinal de contas, há alturas em que apenas conseguimos lamber as feridas, alturas breves, esperamos todos. A minha, resolveu-se por insistência e, talvez por reconhecimento à minha audácia, fiz uma amiga. E tão bom que é ter amigos!
Por aqui têm passado muitos, nesta sala de alcatifa vermelha e escadas em caracol para o sótão do xico, que às vezes é kiko, em conversas intermináveis e confissões inesperadas, tantas vezes desconfortavelmente doces, seguidas de sorrisos e palavras apaziguadoras de qualquer embaraço. Não gostei dela quando a vi pela primeira vez, foi um daqueles casos em que primeiro se estranha e depois se entranha, tudo assim, entre amigos, em casa. Pelo meio tantas histórias, não sei se sou eu que as invento ou se elas aparecem por vontade própria, mas tantas, algumas em memórias dispersas, outras bem nítidas e eternas em mim. Tenho 30 anos, vou fazer 31 e, afinal o que é isto da idade? Eu continuo a sentir-me uma criança neste corpo de homem, quero ir para a rua brincar com os amigos, jogar ao bate-pé e à bota, esconder-me ao som da contagem decrescente de um amigo, talvez uma amiga no quarto escuro. Vou levar para a cova o arrependimento de não ter iniciado mais quartos escuros na infância, isso sei que vou. Mas daqui vejo tudo para a frente, já para trás, talvez haja coisas que possa apagar...
Este é um daqueles textos que sabe bem escrever, ao som de Ella Fitzgerald e de Louis Armstrong, de frente para a sala que me acolhe a mim todos os dias, que nos acolhe a todos aqui na Afonso III. O pior é depois, que afinal é para a frente que não vejo tudo, porque para trás afinal ainda consigo e vocês estão cá todos comigo. De vez em quando eu sozinho, de phones nos ouvidos a escrever estas coisas e vocês por aqui sem que eu vos veja, sob esta alcatifa encarnada a encastrar as escadas em caracol que dão para o sotão do xico, que às vezes é kiko. De vez em quando uma música, uma frase que só nós entendemos, aqui, na nossa casa da Afonso III.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Gosto muito de ti!

Gosto muito de ti.
E esta frase repetidamente escondida dentro de mim. Talvez pelos olhos tu a sejas capaz de ouvir, mas mais ninguém de certeza. Falemos de mim desta vez, que já chega de falar de ti e dos outros. Já não basta encarnar a pele dos outros e escrever por aí. Falemos de mim que assim talvez consiga ajudar quem eu quero. Desta vez, só desta vez, não vou ser egoísta e vou abrir-me para te fechar da dor que julgas ser pior do que aquilo que ela realmente é.
Disseste-me que ias falar com ele porque uma mulher não devia afastar dois amigos. E eu, que procuro em quase tudo algo mágico, concordei contigo. Falar faz bem quando se tem coragem para dizer tudo, por isso não guardes nada para ti e fala como a pessoa pura que és. Eu não, eu sou tudo menos puro e conheço poucos como tu e também por isso gosto de ti, como te escrevi naquela noite em que senti que precisavas de o saber. Nunca gostei de dar conselhos sem que mos peçam, talvez por achar que apenas nós próprios temos todos os dados que nos permitem resolver o problema que somos nós, mas isso sou eu, que guardo coisas só para mim, que sofro sozinho e tomo por minhas coisas que são de outros também. Tu não és assim que eu sei, tu pedes-me conselhos porque não tens nada a esconder, porque para ti eu posso de alguma forma ajudar-te a entender a merda de sentimentos em que por vezes mergulhamos. Felizmente não os pedes só a mim, felizmente não te faltam amigos como te faltam outras coisas, mas pelos outros não posso falar, apenas por mim e mais ninguém. Quando te disse para guardares para ti aquilo que sentes, disse-o por achar que talvez não fosses capaz de o fazer, por achar que serás sempre como um irmão mais novo que nunca tive e a quem eu tenho de dar orientações, esperando continuar útil a ponto de me obrigares a segurar-te pelos ombros e a rodar-te no caminho certo, que nem eu sei ao certo qual é. Mas é isso mesmo que deves fazer, sofrer para ti e partilhar apenas com aqueles que sabes que gostam de ti, porque as nossas fraquezas já nos dificultam tanto a vida que não vale a pena desconhecidos saberem delas. Comigo sempre resultou tentar guardar apenas as coisas boas e esquecer as más, tentar mostrar que estou bem, mesmo sabendo que todos os meus amigos sentiam o contrário. Talvez contigo não resulte, afinal somos tão diferentes um do outro, tu tão puro e transparente, e eu tão complicado e tão difícil de entender. Talvez nada do que eu diga resulte contigo, como resulta comigo, mas o que te disse é o que sinto, sem nada escondido, sem nada na manga para jogar no fim. Fala com o teu amigo, guarda a dor que possas sentir para quem gosta de ti, continua puro para quem te merece assim e, um dia vais perceber que alguém que te ama, nunca iria permitir que perdesses um amigo por causa dela, porque aí seriam os dois a perder. Ah! E só mais uma coisa,
gosto muito de ti!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Não sei por onde começar. Se pela ponta, se pelo fim, se pelo meio a arrepiar caminho, se devagar, esperando que digiras suavemente cada palavra, cada gesto, cada olhar. Queria assim, devagarinho, mas sei que vai ser rápida e bruscamente que vou deixar escapar o que te quero dizer, tal libertação heróica da verdade, das teias da mentira e do medo. Olha, traz uma faca, algo que corte bem que isso pode ser preciso. Se te apetece ajudar-me e depois não consegues, vais-te sentir mal e isso eu não quero, por isso traz algo que corte que eu prometo que não tenho medo. No outro dia, eu sei, não te pedi nada disto porque pensei que tinha o canivete que ganhei aqui no Vitor, mas afinal perdi-o sem saber como, sem saber onde, ainda sentia o peso dele no meu bolso, mas quando lá pus a mão, à tua frente sem que reparasses, já lá não estava. Talvez acabe por salvar outro, pensei eu na altura. Agora não levo nada para não haver surpresas, vou de mãos abertas e logo se vê o que acontece. Sempre gostei das coisas assim e por muito que inconscientemente crie expectativas, espero sempre que aconteça algo diferente daquilo que idealizo. Sempre fui fascinado por coisas inesperadas, atípicas, que nos fazem rever todo o nosso comportamento e muitos dos nossos objectivos e expectativas. Mais vale esperar para ver como isto corre, talvez eu ache a ponta e resolva dizer a verdade, assim, devagar, para que  possas entender aquilo que eu sei e, aquilo que nem eu sei. E não tragas a faca afinal, vem como eu, de mãos abertas e sem medo de me ouvir.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Deixem-nos assim

Um dia conto-vos toda a verdade.
Até lá vou guardá-la comigo, escondida no meu casaco, debaixo da almofada, no porta-bagagem do carro, no meu pensamento, nos meus olhos sempre que me sinto a hesitar.
Nem me apetece falar da verdade, talvez por isso escreva, não quero saber disso, mintam-me à vontade que assim sou mais feliz. Deixem-me ser um leigo, desprovido de qualquer realismo sofrível, imune a qualquer putrefacto odor de mais uma dessas histórias. Guardo-a só para mim, porque não o fazem também vocês?
Deixem-nos assim como estamos, sem mais pormenores, sem mais histórias mal contadas, ou meio contadas, em mantas de retalhos que se revelam quase sempre piores do que a anterior de que tanto nos queixávamos.
Esqueçam de uma vez por todas que existimos que nós vamos tentar fazer o mesmo, eu, já o faço e não pretendo voltar atrás na minha decisão. Guardem essas coisas para vocês e contem-nas uns aos outros, como as crianças fazem em relação às namoradas que vão coleccionando em forma de fotografias num placard de cortiça na parede do quarto. Guardem as escutas, as censuras, as demissões, as nomeações, as sanções e deixem-nos viver na escuridão da ignorância, mais vale assim. A ignorância é felicidade, suponho que já terão ouvido esta, mas agora nem isso podemos ser que vocês não deixam, que nós não nos deixamos.
E eu aqui, sem saber em quem acreditar e já sem acreditar em ninguém, sem referências, sem exemplos a seguir, perdido no mar turbulento da minha mente, por minha conta e risco neste mundo de mentiras que são verdades, de verdades que não passam de um punhado de falsidades. Resta-me a mim e a amizade e o amor dos amigos e da família e, talvez uma ou outra alma caridosa, quem sabe um exemplo, uma referência de que tanto precisamos para seguir em frente sem que antes tenhamos que recuar drasticamente.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Até Sábado!

Por estes dias o meu irmão está na Cidade do Cabo e, ao que parece, tu estás no céu, porque hoje quando saí de casa de manhã, apesar do vento gelado que se fazia sentir na Afonso III, senti-te a aquecer-me a cara. Falei com ele há uma hora, andava num barco com o fundo transparente, imagino que a ver aquilo que sempre esteve habituado a ver, mas que ali, naquela ponta do mundo, terá outro significado. Quando eu lá for, vou encarnar por minutos a pele de um marinheiro luso, à espera de encontrar o fim do mundo numa catarata sem fim, de peito aberto, levando comigo chineses, ingleses e japoneses sempre prontos a registar fotograficamente esses momentos finais, em que juntos, descobríamos finalmente o que havia para lá do horizonte longínquo. Mas tu não faças isso, vê lá mas é se voltas são e salvo.
E tu? Tu só podes estar no céu, porque aqui não te vejo e a lua cheia revela, como tu tanto gostas, uma cor diferente nas pessoas, daquelas que só se observa em dias assim, quando pareces sair daqui e ir lá para cima. Aqui em baixo está frio, aí não? Há a sauna, o banho turco, o aquecimento do carro, os banhos quentes matinais, o pijama no aquecedor a óleo, mas nada sabe tão bem como o teu calor  na minha cara.
Parece que foste tu de manhã e agora à noite outra vez, num brilho de uma lua quase cheia, que nos espera no fim de semana que aí vem. Depois há o calor do escuro do Lux, num sábado à noite com tantos sorrisos amigos por perto. De vez em quando fujo e desapareço. Sabe sempre melhor chegar, quando se sabe que se vai partir outra vez.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

De mal

Apesar de achar que tenho tudo, ou quase tudo, porque tudo seria limitador de toda e qualquer ambição, não consigo deixar de ter dias como o de ontem, em que me sinto mal com a vida e com o mundo e, me fecho em casa depois do trabalho, de modo a evitar qualquer contacto com o exterior. Já desisti de pensar nos porquês destes dias negros se instalarem e, por isso, apenas me limito a esperar que o sono chegue, por norma tarde, para acordar no outro dia sem memória do anterior. Escusado será dizer que isso nunca acontece, os dias passados ficam e não se esquecem e, no fundo, todos eles juntos somos nós. Cada um de nós a sucessão de dias passados e que esquecidos ou não, nos vão enchendo de esperanças, medos, ambições e desejos que se revelam a cada escolha que fazemos, em cada avanço e em cada recuo.
Já desisti de me atormentar sobre os motivos de tão frequentes crises existenciais e fragilidades emocionais, vivo-as e não as escondo de ninguém, até porque não as consigo esconder de mim.
Nunca analisei a frequência ou período destes dias, acho que serão apenas fruto da minha veia masoquista, que acredita que a felicidade não traz sabedoria, que a alegria não traz conhecimento interior, que a dor e a angústia serão a forma mais fácil de crescermos e nos tornarmos por isso mais fortes e mais capazes de vermos a magia, dos momentos de pura felicidade que nos surgem tantas vezes.
Do outro lado do oceano, nos dias que correm, seria difícil explicar isto a quem sobrevive dos restos do nada que tinha, com a dor dos que perdeu, com a fome, a sede e o medo que ali se instalou naquele destino paradisíaco, transformado agora, por capricho ou necessidade da natureza, num quadro pintado de horrores que as próprias imagens que nos chegam, se revelam incapazes de transmitir.
E eu aqui, de mal com o mundo, quando o mundo parece estar de bem comigo...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Olá como estás?

Olhei para a fachada como que a querer adivinhar o que se passava por detrás dela. A Rua estava deserta, consequência não só das horas tardias, mas também devido à chuva que tem caído incessantemente durante as últimas semanas. Têm sido dias difíceis, tais como o tempo...
Perguntei a mim mesmo o que estava alí a fazer, mas não fui capaz de encontrar uma resposta racional. Estava alí e pronto... foi um impulso.
Olá como estás? Estou a responder ao teu telefonema de ontem... apenas hoje pude retribuir... O que tens feito? E o trabalho, como tem corrido?
Embora esteja bem, existem dias em que tenho vontade de saber de ti, não por curiosidade ou outro qualquer interesse superficial, mas porque na realidade me preocupo a sério, e porque gosto muito de ti, não do mesmo modo que gostei no passado e o qual talvez pretendesses que fosse, mas tenho a certeza que de um modo muito mais puro e sincero. Quero muito que estejas bem, que te sintas muito especial e que a vida te sorria, e que tu em resposta mostres esse teu sorriso lindo que melhor do que ninguém sabes fazer.
O que me faz estar aqui a olhar para a fachada, talvez seja o facto de tentar perceber o que correu mal, o que nos fez afastar e acabar com a ligação que nos uniu durante tanto tempo. Mas tal como o tempo as minhas ideias estão nubladas e não consigo alhear-me do lado emocional que me impede de analisar a situação claramente para poder esmiuçar o turbilhão de pensamentos que me ocorrem. Apenas sei que tu és claramente o meu maior fracasso...
Olá como estás? O que tens feito? E o trabalho como tem corrido? Vou continuar a ter vontade de te perguntar... não sei se vais continuar a querer responder-me, mas uma coisa te garanto, embora o tempo nos vá afastando cada vez mais a ponto de termos cada vez menos em comum, quero que saibas que o teu lugar e a importância que tiveste e tens na minha vida ninguém poderá alguma vez apagar...
...Espero que estejas muito bem...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Até logo!

Foi bom o nosso reencontro não foi? Dentro de água, num final de tarde de sábado, sem vento, com o sol a por-se nas tuas costas e um pico triangular a quebrar no "pico louco". Já te tinha ido visitar na 5ª feira à noite, mas, admito, prestei mais atenção à companhia do que a ti, afinal estavas demasiado longe, numa maré vazia que nos afastava e um vento frio que me desencorajou a aproximar-me. Fiquei a olhar-te cá de fora, descobrindo-te entre os silêncios das palavras, na espuma branca das ondas, que assinalava a tua presença naquela noite de quarto minguante.
Contigo as mesmas caras de há tantos anos, já não me lembrava que as caras das pessoas ficam diferentes dentro de água com o fato vestido, os sorrisos, esses, são iguais. Lembras-me tanta coisa, a primeira vez, quando me fiz à esquerda do molhe com barbatanas fluorescentes, uma suntalon amarela e uma licra gota d´água tinha eu uns 12 anos, as viagens de bicicleta com o meu amigo João Paulo, de saco ao ombro a caminho da costa do norte e de São Torpes e depois com a minha DT, viagens atribuladas no jeep do cerruti, no seat marbella do Costa, dentes partidos, cara esfolada, tantos sustos, tantos gritos de prazer, sair da água já de noite com os faróis dos carros a iluminar-nos o caminho enquanto vestíamos as roupas velhas que levávamos para a praia. Porque nessa altura não havia vaidades no surf, o importante era chegar e surfar, sem artifícios, sem modas e sem elitismos como hoje há. Afastei-me de ti em parte também por isso, mas isso é outra história, o que interessa afinal somos nós, devia ter percebido isso mais cedo.
Agora, aqui estou eu, impossibilitado de estar contigo durante a semana, dou por mim a imaginar-me dentro de água, a escolher o momento certo para o movimento certo, na nossa imaginação tudo é mais simples eu sei, mas mesmo assim não foi mau o meu regresso pois não?
Não tenciono escrever-te mais, afinal de contas nunca me respondes. Eu sei que já muitas palavras te foram escritas, mas acho que nunca lhes deste muita importância, foste sempre mais de actos do que de palavras e é nisso que vai residir a nossa relação de hoje em diante.
Até logo meu amigo!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

As coisas da vida podem sempre ser mudadas a tempo



Esta tenho de vos contar. Aconteceu-me no outro dia enquanto te ouvia falar, ali, junto ao rio numa manhã fria de inverno, que estreava um novo ano. Passeei sozinho já de dia junto ao rio até se me acabar terreno seguro para caminhar, de frente para o mar, ao lado do Tejo, que lembro-me, corria naquela zona para montante, como que desejando ficar por ali, imagino que tentando contrariar a inevitabilidade de se vir a perder no teu imenso mar ali tão perto. Disseste-me quase nada, na altura nem percebi o que querias dizer. Soprou um vento gelado que me assobiou junto ao ouvido e tu desapareceste. Aterrou uma gaivota numa das estruturas aparentemente ali abandonadas e por ali ficou, estática durante alguns segundos, eu, olhei a ponte e quando reparei ja ela estava mais próxima, olhou para mim quando eu a olhei e quando observei novamente o rio, senti que ela também. Numa cidade como Lisboa e ali estava eu, a sentir-me em plena comunhão com a natureza, lado a lado como iguais, dois seres tão diferentes. Pensei, amanhã vou surfar, mas não fui, inevitáveis consequências de uma noite de excessos. Depois uma indigestão de camarões que comi alarvemente ocupou-me o fim-de-semana que restava, agora é trabalho durante o dia e com isto ainda não te fui ver de perto. Fica prometido que no sábado te vou visitar em Sines, isto se resistir amanhã ao teu apelo, pode ser que arranje quem me faça companhia e apareça ai para te dizer olá de sorriso rasgado quando já a noite for alta.
Tenho andado afastado de ti, mas o que me disseste naquela manhã fria e que eu só percebi já mais à noite, é-me impossível de ignorar.
Sinto a tua falta, enquanto o vento me soprava ao ouvido e a gaivota chegava a avisar-me que não estamos bem assim. Ainda me custa a acreditar, mas na minha inocência resolvi aceitar a falta que te faço, afinal de contas também tenho sentido a tua ausência. A culpa é minha, eu sei, fui eu que me afastei sem motivo aparente. Não te respondi por causa daquele vento frio, mas quando te vir vou dizer-te, que também sinto a tua falta. Mas não digas nada, desculpa-me em silêncio e vamos ser felizes como antigamente.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

quem és tu 2010?

Foi tão bom que passou a correr. Parece que foi ontem que entrámos no novo milénio e afinal já se passaram 10 anos. Durante tanto tempo os mais velhos lá me foram avisando, que a vida é para aproveitar porque com o avançar dos anos cada vez passa mais depressa, não é que eu não a tenha aproveitado, mas de facto passou rápido, demasiado rápido. Parece que foi ontem que trocámos os escudos pelos euros e damos por nós à porta de uma nova década que se quer bem vivida. Eu com 30 anos e tu com muitos mais e um futuro em aberto pela frente. Há 10 anos, tinha eu 20 e uma década para percorrer até chegar aos 30, e, confesso que foi boa, muito boa, cheia de pequenos momentos que guardo em retalhos coloridos dentro de mim.  Muitas vezes escrevo aqui neste blog, coisas que porventura apenas eu perceberei, por serem tão minhas, mas hoje não, hoje escrevo para todos os meus amigos, para todos os que amo, para os que perdem tempo a ler-me e para os que nem por isso, no fundo são apenas palavras que ficam guardadas, pensamentos e sentimentos meus que poderei reler mais tarde, lamentando a minha ingenuidade e sorrindo com o que a vida me ofereceu entretanto.
Chego a 2010 feliz, suportado por amizades e amores que povoam de cor e de sabores condimentados o meu pequeno mundo, que tento insistentemente que se mantenha aberto a tantos outros mundos. Sou no fundo como era há 10 anos, mas um pouco mais experiente e maduro, numa aprendizagem contínua dos outros e de mim próprio com eles, mas felizmente não deixo de me sentir uma criança. A vida não é assim tão complicada, somos apenas nós e os outros e agora pelos vistos o ambiente pelo meio a assustar-nos, nada de muito preocupante e mesmo se for, não vale a pena complicar mais, afinal de contas tudo parece acabar por se resolver e por ser mais simples do que aquilo que parecia ao inicio. Talvez seja essa a nossa maior fraqueza, mas as coisas entre nós e o ambiente são simples, travamos uma luta entre a ganância e a razão, a mesma de sempre, sensações voluptuosas contra a tão razoável razão, se não ganharmos é porque não fomos capazes disso e depois se verá o que a natureza nos preparará em jeito de condenação. Convém simplificar as coisas e passar da discussão à acção, esquecer o orgulho e arregaçar as mangas em prol de todos nós, que a natureza, pelo que se diz, tem mão pesada.
Intenções e desejos à parte, porque não é disso que trata este excerto do meu estado de espírito, quero que saibam que tenho gostado muito destes últimos 10 anos com vocês por perto, com vocês a sorrirem ao meu lado, para mim, de mim, de outros, para outros, da vida, para a vida, vivendo e crescendo juntos, por entre esta sociedade tão injusta. Vamos-nos manter bem acordados, dia e noite, tardes e manhãs, para aproveitarmos ao máximo o que nos resta desta vida, unidos, como sempre. Que escolham bem, que arrisquem, que ganhem, que percam, que riam, que chorem, que vivam pura e simplesmente, tentando vencer os medos que são nossos por direito. Que eles sirvam apenas para nos sentirmos vencedores a cada escolha que façamos de livre e espontânea vontade.
Eu, não peço muito mais do que aquilo que tenho tido, no fundo apenas quero continuar a ser feliz.
Não sei o que nos trarão as próximas décadas, nem vale a pena pensarmos nisso agora, 2010 está aí e há-que vivê-lo bem. Obrigado a todos e bom ano, boa década e boa vida! Vamos-nos vendo por aí. ;)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Uma noite de Luz








A chuva caía a cântaros e o frio parecia querer desencorajar qualquer aventura no exterior. Mas sem qualquer dúvida ou temor, por volta das 17 horas iniciei a minha caminhada para o local de culto que todos os 15 dias me faz sair de casa, independentemente da meteorologia ou dos filmes que estejam a dar na televisão. Desta vez, fui de transportes, e pude com calma apreciar o modo eufórico e apaixonado com que milhares iguais a mim se deslocavam... todos com o mesmo objectivo, todos na mesma direcção... no fundo, todos atrás do chamamento da Luz...
Quando saí da estação do metro, nas imediações do estádio, uma chuva diluviana caía do céu. Na rua e sem qualquer hesitação milhares de adeptos movimentavam-se em direcção ao seu destino. Nenhum se queixava, crianças, mulheres, velhos e até um cego que não se importando com as poças de água que lhe iam molhando as calças quase até aos joelhos, continuava a sua caminhada triunfal. De tempos a tempos alguém lançava gritos de incentivo, dizendo "Até os comemos...", ou "hoje nem que chovam calhaus...". E no meio desse povo motivado e encharcado até aos ossos, percebi que realmente a união faz a força, e pressenti que hoje ninguém nos ia parar.
O jogo começa e o meu Benfica começa a carregar sobre o Porto, sem dó nem piedade. Nas bancadas o público grita e exalta-se com cada jogada, com cada finta sobre o adversário, com cada remate à baliza. O Porto vai tentando a todo custo manter a sua baliza inviolável, mas o poder de fogo do Glorioso é arrasador e a meio da primeira parte o Dragão, esse animal das trevas leva uma primeira e única estocada que o deixa por terra. A partir daí apenas teve alguns espasmos, como se fossem tentativas de reagir à morte anunciada, e sobre o olhar de milhares que entoavam cânticos de guerra, o Dragão morreu em pleno inferno...
Ai Benfica, como eu te amo, e quanto bem tu me fazes em dias como este... Uma coisa é certa, amanhã chova o que chover ou faça o frio que fizer, Portugal vai acordar muito mais feliz...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Um domingo diferente

Falta menos de uma semana para o Natal e hoje o meu Benfica recebe esse clube sombrio que vem do Porto.
A Luz contra a sombra num Domingo, depois de um sábado de emoções demasiado agradáveis para que delas vos possa sequer  tecer qualquer comentário. Às vezes as coisas não são tão boas como parecem, enquanto que noutras ocasiões as coisas são melhores do que aquilo que imaginámos e isso, julgo eu, deixa-nos quase sempre confusos.Bom resto de fim-de-semana que hoje, apesar de me apetecer muito escrever, não o faço para minha auto-defesa.
Os meus amigos tenham calma que hoje joga o Benfica!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Fica por aqui



Já não te escrevo nada há algum tempo. Talvez esteja a passar por uma fase de puro egoísmo em que preciso guardar para mim todos os pensamentos e divagações que me assolam a alma, ou talvez seja a insegurança que me aconselha a escrever menos para que assim te poupe a mais uma leitura vã e infrutífera, ou talvez um misto das duas e um pouco de medo de escrever o que não quero que se saiba, afinal de contas, já basta eu sabê-lo. Além disso ambos sabemos que quando escrevo me foge a mão para a verdade e a verdade, essa, nem sempre é aconselhável.
Esquecendo a ignóbil tentativa de explicar a minha ausência a mim próprio, conto-te que traí Lisboa durante estes dias que se passaram, a minha velha, gasta e luminosa como sombria Lisboa. Mas ela era tão gira, tão viva e colorida que não pude resistir-lhe, bastou um sorriso electrónico, uma história contada por terceiros da sua personalidade, um piscar de olho fotográfico captado num dos pináculos da sagrada, para te trocar e querer ser feliz em Barcelona, essa espanhola maquilhada com tendências separatistas. Depressa me passou o fascínio porém e assim que te revi, cá de cima, a certeza consolidou-se numa breve e linda história de amor eterno, como a cada passagem pelo tabuleiro da 25 de Abril. Eu a repartir-te com tantos e tu a aturar estas minhas aventuras mais ou menos breves, mas cada vez mais frequentes. Tu já sabias de Sines e não te importaste, aliás tu roubaste-me a Sines...E eu, rendido a ti, em casa contigo, ou em ti, desde aquela noite em que me perdi nas tuas curvas e acordei com o cheiro da tua testa a perfumar-me o dia. São pequenas coisas, que fazem o que há entre nós, pequenos momentos de poucas falas e de silêncios mágicos. Ninguém diria que fariamos um casal engraçado, sem antes nos terem visto juntos, eu próprio achava que não nos dariamos assim tão bem antes dessa noite de perdição, que desde então se vem repetindo. Não sei porque gostas de mim, mas adoro quando o dizes por entre um som de uma gaivota e uma buzina de um fogareiro mal disposto, piscando-me o olho por entre dois prédios unidos pelo azul do rio que continuas a desprezar. Eu já te disse mil vezes que não o devias tratar assim, qualquer dia perdes o tejo para os espanhóis e aí depois vens chorar no meu ombro à procura de água para me dar de beber. Vai ser um caso perdido. Ele pode voltar é certo, mas não devias virar-lhe as costas assim, é injusto e perigoso, para além de não te beneficar a tez, que como sabes é a tua maior arma de sedução. Não sei porque continuo a perder tempo contigo, devia aceitar-te como és e esquecer os teus defeitos de uma vez por todas, afinal de contas nunca foste capaz de te moldar a mim, fui sempre eu a ter que me submeter aos teus caprichos. Mas não vamos agora falar sobre isso, senão ainda acabamos a deitar à cara um do outro coisas que apenas servem para nos magoar mutuamente. Vamos apenas ficar assim, juntos e em silêncio a ver o Tejo passar aqui da janela da minha casa, enquanto ao ouvido tu dizes que me amas e, eu, sem palavras, beijo-te sem saber o que fiz para te merecer.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

num muro aqui em baixo

Aqui em baixo da minha casa, estão pintadas num muro as palavras, "Amo-te Helena" e por baixo a preto, "desamo-te! podes morrer à vontade".
Podes morrer à vontade, assim se transforma o amor em desamor, o sim em não, a vida em morte. Vi há dias, uma noticia que dava a conhecer os números dos crimes "sentimentais" em Portugal, demasiados números para tão pouca razão. Dizem que tudo se resolve com amor, que o amor tudo cura, que é a solução para todos os problemas, eu, até concordo com a importância do amor na vida de cada um de nós, realmente não vale a pena viver sem amar, sem sentir que um outro ser, em tudo diferente de nós, nos ama simplesmente, sem porquês pelo meio.
O amor não é eterno, desenganem-se os sonhadores, o amor mesmo que não desapareça, sofre modificações ao longo da vida, resultado das vivências conjuntas e individuais de cada um dos enamorados, o amor, um amor verdadeiro, por muitos abalos que sofra fica connosco até ao fim e, talvez até levemos mais do que um, mas todos contam, todos são importantes e, talvez por isso valha a pena guardar apenas as coisas boas quando ele acaba, mesmo que para nós ainda esteja presente. Vitimas somos todos, desta vida que percorremos, não vale a pena criar outras estupidamente.
Sejam felizes!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Hoje estás tão gira!

Hoje estás tão gira!
E ela a sorrir. Pareceu-me que queria dizer,
Tu também estás tão giro hoje, com essa barba por fazer...
Mas não disse, sorriu e virou costas com um olhar que sugeria que a chamasse de volta. Não o fiz e ela seguiu, desaparecendo ao virar da esquina. E eu ali, parado, hipnotizado. Quem sabe a mulher da minha vida e eu, deixei-a ir, assim, sozinha. Resta-me o consolo de que lhe fiz bem ao ego mas e eu? Como fico eu?
No outro dia a mesma coisa, uma raposa a passar e eu com uma espingarda e fiquei ali, quieto, embasbacado com aquele momento. Só eu e ela e nada se passou entre nós. Ainda por cima devia ser a maldita que me come a criação, porque ainda ontem me morreu outra.
E eu sentado no sofá com a janela virada para o mar aberto no meu peito, ancorado por um pequeno nó que me prendia a esses dias, a esses momentos que, julgava eu, seriam um exemplo para o que de futuro viesse.
E a minha esperança sem sentido a salvar-me mais uma vez, do falhado que eu sou, a convencer-me de que afinal de contas estava mais experiente, mais maduro, mais preparado para o que me viesse a acontecer. Foi quando te vi que percebi que afinal não, que a minha esperança mais não tinha senão um sentido maternal muito próprio e genuíno. Eu ali calado e tu a olhar para mim, parada e quieta. Falaste mas eu não ouvi nada do que disseste. Viraste costas depois de me olhar uma última vez, confusa e desiludida pelas expectativas que talvez tenhas criado naqueles breves instantes. E eu ali, a ver-te partir,
resta-me o Mundo pensei eu e virei costas a sorrir para o mar aberto no meu peito.

sábado, 14 de novembro de 2009

Bom fim-de-semana!



Daqui a algumas horas já vou estar no Pavilhão Atlântico a ver os Depeche Mode a tocar e David Gahan a expressar-se na sua forma unica e incomparável. É um daqueles concertos que falhei já demasiadas vezes e que desta vez finalmente poderei viver e sentir.
Muitas das suas músicas acompanharam toda a minha vida, até chegar onde estou hoje, com 30 anos mas a sentir-me ainda uma criança.
Escrevo todas estas palavras ao som dos Depeche, cerimonialmente ao som de Personal Jesus e de todos os videos ao vivo que vou encontrando no youtube, apetecia-me escrever, mas agora as palavras parecem estar entaladas, talvez seja a ansiedade por hoje à noite que me esteja a desviar a atenção.
Está para ai a chegar o Natal e já se avistam nas ruas, em lojas e em postes de iluminação as decorações festivas e se as árvores substituem agora as vestes naturais por outras, menos amigas do ambiente, eu, nós, que por cá andamos, continuamos iguais, seguindo as nossas vidas de acordo com este horário deprimente que nos impõem ano após ano.Ás 5 e meia da tarde já é noite e é com isto que temos de lidar, eu, que me deito por norma por volta da uma da manhã, passo quase 8 horas das 17 ou 18 em que estou acordado de noite. Em Inglaterra, onde o dia ainda é mais curto, este horário de Inverno começa a ser cada vez mais contestado, tendo sido recentemente apresentados alguns estudos que comprovam, o maior gasto de energia a que este horário nos obriga, mas ao que parece, ninguém está muito preocupado com isso.
Contestações à parte, espera-me um fim-de-semana diferente, concerto dos Depeche, seguido de Lux onde na companhia do Rui Vargas, me esperarão muito boas sonoridades pela noite dentro. Até lá, uma breve limpeza caseira para me entreter e afastar a ansiedade.
Bom fim-de-semana!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Há seres assim

Tenho 79 anos! E ria como uma criança. Limpava as lágrimas enquanto dizia, vim lá de cima com estes sacos! E eu, na caixa para pagar, depois de um final de dia atribulado com uma passagem pela oficina para deixar o carro. Salvara-me o meu amigo Pedro e agora isto.
- Olhe eu sou de 79 veja lá! E ela a rir desalmadamente numa alegria que contagiou as 5 pessoas naquela entrada de supermercado. 
Depois de pagar e de aconchegar os sacos das compras,
Boa noite a todos! E ela a rir, tão baixinha, com os seus cabelos pintados de louro a desejar-me um noite muito feliz.
Obrigado e igualmente e virei costas e fui a rir sozinho pelo caminho.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Apenas te peço isso

Gosto de estar comigo próprio e talvez por isso às vezes não me apeteça estar com ninguém. Gosto das longas conversas e das dissertações constantes em que me perco no prazer de estar comigo. Serei eu o amor da minha vida, serei eu a minha própria alma gémea, porque ninguém me conhece assim, ninguém me diz o que eu digo a mim próprio. Não conto a mais ninguém tudo aquilo que sinto.
Sei que não me julgarás, sei que és parecido comigo, que és meu semelhante, que me percebes apesar das desilusões que te possa causar. Sou mais forte contigo, porque sem ti não sou ninguém, sem ti não vivo sequer. Alma gémea que sou eu, que amores há muitos, mas nem com esses podemos contar, mas tu não, tu nunca me magoarás por vingança, nunca me tentarás magoar em própria defesa. Abres as mãos para mim e ouves o que tenho para te dizer, sei que não me julgarás sem que primeiro te ponhas na minha pele, sei que o farás e por isso gosto de ti, por isso apenas preciso de ti. Tudo o resto são acessórios, uns mais importantes que outros, mas sem eles sobreviveremos juntos. Todos eles nos ajudaram a ser quem somos, a todos eles amamos de forma única e exclusiva, os nossos amigos, tudo sangue da nossa alma que para sempre protegeremos. Pequenas ideias, pequenas jóias da nossa vida que nos ajudam a avançar cada vez mais unidos, também eles bem acompanhados, também eles sozinhos consigo próprios.
Só aqui falo contigo de forma a que os outros escutem também, só aqui nos separamos para dar lugar aos outros que aqui espreitam as palavras que trocamos. É especial este nosso amor não é? Fica comigo e deixa-me apenas quando eu te deixar também, apenas te peço isso.

Pode ser que um dia...

Podes morrer descansada, que desta vida não levas mais nada. Já agarraste tudo e por aqui nada deixaste. Morre por isso à vontade que desta vida nem mais uma ferida.
Um dia seria tão bom que deixasses algo por vontade própria,
um gesto de benevolência sem história,
um presente por desembrulhar,
para onde eu pudesse olhar,
que apenas um pudesse tocar.
Mas não uma velha como tu,
amarga e azeda por quem ninguém faz luto,
não alguém assim, que vive só para si,
sem olhar os outros antes se ver primeiro a si.
Um dia saberás talvez que aqueles que perdeste,
nunca sequer os tiveste,
que aqueles em quem nunca pensavas,
te amassem sem palavras.
Não mereceste em toda a tua vida ninguém,
no entanto tiveste-me a mim também...
Tiveste à tua maneira, sem nunca procurar,
tiveste de mão beijada e deixaste fugir,
quem um pássaro prestes a voar,
não fica para sempre ali a sorrir.
Vai por isso e não voltes mais,
reencarna e pode ser que um dia,
aches outro ser que veja para onde vais,
que te veja  sem saber que afinal não via.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Benfica



Sou Benfiquista e guardo comigo as alegrias das vitórias e a dor das derrotas de que me lembro. Por vezes dou comigo a cantar o hino e, quer ganhemos, quer percamos, sinto orgulho em pertencer a tudo aquilo que é esse invulgar clube.
Ainda me lembro, por entre imagens fotográficas, da primeira vez que fui ao estádio da Luz ver o Benfica. Foi num Benfica-Porto em que ganhámos 2-1. Ficámos no 3º anel no inicio de uma das 4 curvas que envolviam o relvado da antiga Luz e desde aí não mais fui o mesmo. Dizem que somos 6 milhões, mas não é isso que nos faz grandes, o que nos faz um clube diferente de qualquer outro, é a forma como um Benfiquista vive o seu clube, como sente e transmite o seu amor e o seu desejo de vitória. Não sei se já foram ver um jogo do Benfica, se não foram experimentem, porque deveria ser algo obrigatório para qualquer ser humano, independentemente do clube que apoia. Ali cada Benfiquista é um amigo, cada um solidário com a dor do outro, as alegrias essas, vivem-se numa euforia contagiante e com isso o vizinho do lado, um perfeito desconhecido minutos antes, pode ser o amigo que abraçamos no festejo de mais um golo do Benfica. Já vivi todo o tipo de sentimentos na Luz, desde uma dor revoltante debaixo de chuva nos 0-5 que o Porto nos deu na nossa casa, aos parabéns cantados por 120 mil ao Rui Costa no dia em que jogámos com o Parma ou os festejos do titulo de campeão a altas horas da madrugada. Já passeei pelo relvado no dia a seguir à morte do Fehér para lá deixar o meu cachecol e já me sentei naquele mágico banco de suplentes. Já vi malucos de toda a espécie e as cenas mais bizarras nos dias de jogo e sei por isso, que se o Kusturica cá viesse ver um jogo, tomaria imediatamente a decisão de fazer um filme sobre um grupo de adeptos do meu clube.
Passámos por uma fase má, é verdade, mas o Benfica é eterno e agora parece-me que estamos a regressar em grande. Não nos peçam para não entrarmos em euforia, porque é isso que faz a nossa força, é isso que faz a nossa energia chegar aos jogadores e que nos torna a todos no 12º jogador mais forte nos 4 cantos do mundo.
Esta segunda fui ao estádio e, talvez daí venha a minha esperança, porque vivi o ambiente e a energia que criámos ali, algo mágico e único garanto-vos eu.
Não gosto de coisas sombrias e sujas e talvez por isso abomine o Porto, assim como não gosto de coisas comedidas e talvez por isso nunca pudesse ser do Sporting, sou do Benfica e ao sê-lo sou melhor pessoa, sou mais humano e mais sensível à diferença, vivo as coisas intensamente e admiro aquilo que é único e singular.
Ser do Benfica, deveria ser aliás receita médica obrigatória aquando do nascimento de qualquer bebé, mas ser Benfiquista é coisa que não se ensina, ou nascemos assim ou nunca seremos de facto capazes de o ser.
Não interessa se goleamos, não interessa se ganhamos ou perdemos, se bem que com isso o país sofra também, o que conta de facto é que continuemos a ser assim, autênticos e por isso únicos.
Viva o Benfica!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Nem que seja por escrito

À terça parece que andamos por obrigação da condição em que nos encontramos. A semana já começou e agora é aguentar até à próxima sexta à noite. Passada a fase eleitoral, que por norma assisto como se de um mundial de futebol se tratasse, deslizamos agora suavemente até ao findar de um novo ano e início de um outro que sempre me fascinou. 2010 e uma nova década. Lembram-se de quando pensavam em 2010 nos anos 80 e 90? Uma desilusão! Não há robots, não há carros voadores, nem nos vestimos de fatos completos de lycra, com estampados geométricos. Não habitamos a lua, não temos naves espaciais dignas desse nome e continuamos a andar de ganga. Como será em 2030? Continuará Portugal bem classificado na lista de países com maior desigualdade social? Onde estarei eu em 2030? Quem serei eu? Que farei nessa altura? Nestes dias, um novo apelo começa a despontar em mim. Não é nada paternal, desenganem-se, mas começo a achar que devo tentar participar um dia no campeonato do mundo de futebol. Não gosto do formato actual, nem dos seus poucos ideais e, talvez por isso não me apeteça ficar só a ver. Como conseguimos afinal mudar algo de que gostamos tanto e que julgamos estar mal, se ficamos apenas a assistir? Esta questão é no fundo, a génese de toda esta minha problemática existencial. Como toda a boa questão existencial, esta terá de ser pensada, repensada e analisada de fora com recurso a amigos. Às vezes, parece que estou para aqui a escrever para ninguém, a escrever apenas para mim e em boa parte isso é verdade. Aqui sinto-me tão bem comigo que tudo fica mais claro, que tudo fica mais simples e desanuviado. Comigo sempre foi assim, sempre me expressei melhor por escrito do que forma oral, não que tenha algum problema na articulação de palavras, talvez esteja mais relacionado com a timidez do que com o facto de ser um discreto sopinha de massa. Em relação ao campeonato do mundo em que quero participar, apenas vos peço que me avisem se mudar, se me tornar noutra pessoa que vocês não apreciem da mesma forma, eu, garanto-vos que também vos vou avisando, nem que seja por escrito.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A sala de espera

À minha frente, uma senhora loura dorme com a parede como almofada, braços cruzados a prenderem a mala que jaz no colo, que isto já nem nos hospitais se está seguro.
Três filas de cadeiras desalinhadas, onde deveriam caber apenas duas, numa sala que me parece um velório sob luz fluorescente. Aqui todos falam em sussurro, excepto um senhor que acabou de chegar, carregado com sacos de plástico. A mulher que o acompanha traz uma ligadura, um género de renda à volta da cabeça com um penso de lado que lhe tapa parte da orelha.
Santa Maria é um bom exemplo do estado da saúde em Portugal, está mal, mas à força das pessoas lá vai funcionando.
Hoje era suposto escrever sobre política (dadas as circunstâncias), mas não me apetece nada e além disso, a saúde é mais importante.
Trouxe uma revista, mas a minha acompanhada apoderou-se dela e lê entusiasmada um texto sobre o estranho comportamento da 1ª dama japonesa.
- Vou ao carro buscar uma caneta e uma folha, e, quando volto já ela se apoderara do assunto. Eu compreendo-a, afinal aqui tudo serve para ajudar a passar o tempo, excepto esperar. Ouvir as conversas dos outros, é também uma boa forma de passar o tempo na sala de espera. A senhora da ligadura não pára de suspirar, o marido sentado na fila da frente, continua virado para trás. Afinal não falava alto porque estava cansado, mas porque tem um defeito na fala. Quando voltei da caneta, olhou-me com um estranho ar esgaziado...
Ao seu lado um casal de velhotes conversa, provavelmente já ouvem mal, porque falam num tom muito superior ao normal. Falam de uma sobrinha que ao que parece se vai casar, não me parecem nada doentes, serão acompanhantes de alguém como eu?
Eu aqui estou, ao canto já com a revista ao colo a servir de base à folha onde escrevo. A minha acompanhada entretanto já entrou e espero que já esteja a sair, que eu suspeito que se aqui fico mais tempo, saio daqui doente e amanhã estou de volta.
A senhora loura à minha frente continua a dormir e eu aproveito para ouvir as conversas dos outros. Há pessoas estranhas...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Até para o ano!

Hoje acaba o verão e começa o Outono e eu, como bom distraído patológico, sou apanhado desprevenido, avisado no próprio dia para uma despedida com reencontro marcado para depois da Primavera em flor.
Até lá, as folhas começarão a cair, despindo a grande maioria das árvores de qualquer ornamento, os dias tornar-se-ão mais curtos e a ajudar, em breve, não sei quando, o horário mudará e ser-nos-á roubada mais uma hora para depois a devolverem quando já parece não ser preciso. O frio obrigar-nos-á a vestir roupas quentes e a tirar do armário coisas que já nem nos lembramos ter e, os não fumadores ganharão o privilégio de também eles poderem brincar com o fumo que lhes sai do calor da boca, pena não nevar para podermos regressar à infância, atirando uns aos outros bolas de neve e tentando elaborar um boneco de neve que à noite pudesse ganhar vida e partisse fugindo do calor que o mataria.
Fica a saudade do verão a abraçar-nos, isso fica, confortada com o calor da lareira enquanto desembrulhamos os presentes de natal, com a esperança que o próximo Verão possa ser ainda melhor que o anterior, que esse já lá vai. Já lá vai e não volta mais, mas sobre isso não nos martirizemos, porque se fosse caso disso, sofreríamos todos os dias, pelo anterior que já não volta.
Talvez estas despedidas e estes reencontros, não vos afectem como a mim, talvez não as sintam sequer, já em mim a nostalgia tende a instalar-se sempre que sinto os dias a encurtarem e a noite a chegar mais cedo. Mas com vocês, meus amores de todas as estações, tudo isto parece ser um mal menor e inevitável, talvez por isso sem importância.
Só não me troquem os horários. Que tal fazermos um abaixo-assinado a reclamar as horas que nos tiram e nos devolvem todos os anos?

domingo, 20 de setembro de 2009

Votem!



Daqui a uma semana, a esta hora, já saberemos quem será o 1ºMinistro que governará Portugal, em principio durante os próximos 4 anos. Nesta coisa da política, tal como no futebol, o que hoje é mentira, amanhã é verdade, ou poderá ser verdade, o que a torna ainda mais complexa. Eu, após longo período de reflexão, já decidi em quem vou votar, dispenso por isso o dia de reflexão e guardo-o para ir a Sines de propósito exercer um dos meus mais importantes deveres para com a sociedade.
Estive indeciso, assumo, mas agora as dúvidas dissiparam-se.
Sei que alguns dos meus amigos acompanham este blog, sei que costumam vir cá espreitar aquilo que escrevo. Não gosto de ser chato e, talvez por isso apenas me pronuncio sobre política quando me falam no assunto, por isso, caso não vos tenha dito já, espero que vão votar, nem que seja em branco, nem que escrevam o vosso nome e lá coloquem uma cruz. Pesquisem os sites dos vários partidos, ganhem tempo em vez de o perderem noutra coisa qualquer e leiam o que eles propõem. Deixo-vos aqui os links dos programas eleitorais de todos os partidos que concorrem.
Boa reflexão!

Bloco de Esquerda - BE

Partido Popular - PP

Coligação Democrática Unitária - CDU

Movimento Esperança Portugal - MEP

Movimento Mérito e Sociedade - MMS

Movimento Partido da Terra - MPT

Partido comunista dos Trabalhadores Portugueses - PCTP-MRPP

Partido Democrático de Atlântico - PDA

Partido da Nova Democracia - PND

Partido Nacional Renovador - PNR (Dá erro ao tentarmos abrir a página)

Partido Socialista - PS

Partido Social Democrata - PSD

Partido Operário de Unidade Socialista - POUS

Partido Humanista - PH